de uma abordagem universal da filosofia da natureza não Nossa primeira tarefa, entretanto, consiste em evitar a deve nos afastar do relevante aspecto de sua historicidade. simples redução do processo de desenvolvimento da filoso- O próprio conceito filosófico de "natureza", inaugurado a fia da natureza a uma história das ciências da natureza. Para partir da tradução latina de Sêneca sobre o conceito grego tanto, foram destacados quatro momentos da história da de physis, bem como os diversos outros conceitos envolvi- filosofia como os mais representativos desse desenvolvi- 1 dos nas considerações filosóficas acerca da natureza, tem mento. f sofrido ao longo dos séculos notáveis transformações de O primeiro momento paradigmático localiza-se na significado,e uma das principais razões para issoé sem dúvida origem do pensamento filosófico grego, em que encontra- o desenvolvimento das chamadas ciências da natureza. mos a concepção de physisem intrínseca relação com a idéia Alguns dos principais conceitos pensados pela filosofia de uma ordem imanente ou uma espécie de entendimento da natureza encontram-se também nas teorias científicas, que permeia os movimentos e processos da natureza. Essa como "matéria", "substância", "força", "movimento", "vi- concepção pode ser contrastada, por um lado, com uma da" e "organismo". A semelhança de linguagem, porém, compreensão mítica anterior, da origem do mundo, mas, esconde uma grande distinção não apenas metodológica, por outro lado, também com a prática da experiência que mas principalmente semântica na utilização desses concei- caracterizará os procedimentos considerados propriamente tos por ambas as esferas do saber. A relativa independência científicos. O segundo momento, iniciado também na anti- dessas esferas dá-se a partir da possibilidade ampliada do güidade grega, diz respeito à teoria atomista sobre a consti- exercício especulativo que se permite o filósofo da natureza, tuição das coisas, que tanto influenciou a concepção moder- enquanto o cientista, bem ou mal, precisa manter-se no na de natureza. Esta apresenta nítido contraste com uma círculo mais restrito, se não da verificabilidade empírica, ao idéia de natureza animada, concebida nesse mesmo perío- menos da demonstrabilidade matemática. A razão filosófica do. No terceiro momento, identifica-se o surgimento, na que conduz o filósofo da natureza pode permitir-lhe a ultra- Idade Média, de uma compreensão ambígua da natureza, ao passagem desses limites, embora não deva transgredir a mesmo tempo criada por deus e inabitada por ele.Esseenten- recomendável lógica imanente ao encadeamento de suas dimento será contrastado com a analogia da natureza com próprias idéias. Por outro lado, a relação da matemática e da um livro sagrado capaz de revelar o divino. No quarto mo- experiência com o conceito de natureza, longe de ser igno- mento, acompanharemos de forma relativamente sucinta a rada ou menosprezada pela filosofia da natureza, será, como consolidação de um pensamento mecanicista, predomi- teremos oportunidade de constatar, um dos produtos de nante no século XVII. Para finalizar, entraremos em contato sua especulação racional. com algumas idéias fundamentais de Schelling, considera- das até hoje o grande paradigma da especulação filosófica da pecialmente no início da idade moderna, época de maior natureza de todos os tempos. E, por tratar-se de um filósofo ascensão das ciências da natureza. ainda relativamente pouco conhecido no Brasil, este volu- Não se trata aqui de apresentar uma disputa partidária me se encerra com a tradução de alguns de seus Aforismos entre essas duas tendências, tampouco de propor a adesão a para introdução àfilosofia da natureza. uma ou outra das partes em conflito, mas antes de elucidar uma dinâmica própria de nosso saber acerca da natureza. É Em seu desenvolvimento ao longo da história, a filosofia da interessante admitir que esse tipo de contradição não ocorre natureza parece ter oscilado sempre entre duas tendências apenas em modos diferentes de pensar a natureza, mas opostas: uma que pensa a natureza como divina, animada constitui o próprio processo do desenvolvimento natural. ou como um imenso organismo vivo, e outra que a concebe Afinal, a natureza é ao mesmo tempo aquela que gera a vida como uma grande máquina, secularizada e desprovida de e aquela que a extingue; a mãe generosa que fornece nosso alma. De um lado, os idealistas, os vitalistas e os românticos, meio de subsistência e o poder capaz de destruir qualquer que estendem o conceito de organismo aos seres aparente- pretensão humana de superioridade. É essa ambigüidade mente inanimados, situando o princípio do movimento da que será abordada, essa contradição que, aliás, se reflete em nós, em nossa natureza humana, também inegavelmente natureza no interior dos próprios corpos que se movem e contraditória. É possível, assim, encontrarmos ao longo da conectando cada parte do cosmo por meio de uma ordem história da filosofia formas de pensamento sobre a natureza imanente à própria natureza. De outro, os ato mistas, os que cada vez mais se permitem internalizar esse tipo de racionalistas e os mecanicistas, que transformam a natureza contradição, tornando-a tema da reflexão filosófica. em máquina sem vida própria, cujo movimento é sempre causado por fatores alheios. É possível argumentar que o surgimento e o desenvol- A origem da filosofia da natureza vimento das ciências da natureza privilegiaram esta última com base no conceito grego de physis tendência, não apenas porque, durante muito tempo, foi mais fácil aplicar a matemática a teorias mecânicas sobre o Um modo interessante de compreendermos o surgimento movimento na natureza mas também porque a idéia de da filosofia da natureza e da filosofia em seu conteúdo mais vitalismo foi, também por muito tempo, associada a misti- originário é pela transformação de uma cosmogonia domi- lÍsmo e obscurantismo, apresentados como grandes obstá- nante no pensamento mítico grego em uma cosmologia culos ti razão, que reivindicava sua própria autonomia, es- propriamente dita, presente no pensamento dos primeiros filósofos da Grécia. Os deuses primordiais são Caos, Eros e em sua totalidade. Esse estranhamento pode ser identifica- Géia. A Terra engendra de si mesma Uranos, o Céu. Mãe e do pela clássica definição aristotélica da condição para a filho se envolvem, então, em uma cópula quase eterna que possibilidade do filosofar. Para Aristóteles "os homens co- os torna indiferenciados até que seu filho Cronos, o tempo meçam e começarão sempre a filosofar movidos pela admi- em sua expressão ainda puramente negativa, os separa me- ração (thaumaston)" . Esseespanto originário é descrito pelo diante violenta castração, engendrando por sua vez o dia e a fil6sofo com exemplos da relação do espírito humano com noite. Na mitologia grega antiga, Géia permanece uma deu- a natureza exterior, mais especificamente com fenômenos sa poderosa, porque acumula o poder da sabedoria de toda cósmicos, tais como as "mudanças da lua" ou aquelas "re- a verdade anterior ao tempo; ela é a mãe originária de todos lativas ao sol e às estrelas", ou os fenômenos decorrentes do os deuses e sabe tudo o que acontece no passado, no presen- que denominava "geração do universo". Aristóteles obser- te e no futuro. É possível interpretar a teogonia grega antiga vou a proximidade entre esse espanto filosófico e o espan- como uma cosmogonia mítica e pré-racional, ou seja, como to mítico que inspirou os poetas da Antigüidade, concluin- poesia que narra, a partir da metáfora dos deuses, a origem do que "também o que ama os mitos é de certo modo de cada elemento do universo e de suas relações recíprocas. filósofo; pois o mito se compõe de elementos maravilho- O momento inaugural da filosofia é, entretanto, carac- sos", ou seja, capazes de provocar espanto igual. Nessa mes- terizado pela busca de uma explicação para a origem do ma passagem de sua obra intitulada Metafísica, Aristóteles cosmo que não mais se fixe apenas na linguagem poética da acrescenta que "aquele que se coloca um problema ou se teogonia. A tão comum definição do início da filosofia admira reconhece sua ignorância", repetindo, assim, a má- como a substituição da explicação mítica ou (como é recor- xima socrática de que a consciência do não saber é o motivo rente nos manuais de história da filosofia) a passagem do para a busca do saber, para o amor pelo saber, portanto, mito ao logosé por demais simplista para descrever o que para o filosofar. representou histórica e filosoficamente essa origem. Com- A filosofia começa cerca de 200 anos antes de Aristóte- preender a filosofia antiga a partir da relação entre logose les, na região da Grécia localizada na costa da Ásia Menor. physis é de fato compreender que o início da especulação Os filósofos jônicos são considerados os primeiros filósofos filosófica sobre o mundo é em grande parte acompanhado da natureza ou "physiólogos". Thales, Anaximandro, Ana- pela tradição mítica grega de unidade entre espírito e natu- xímenes, Diógenes de Apolônia e Heráclito deixaram alguns reza, e, ao mesmo tempo, pelo início de um certo estranha- poucos fragmentos, cujo tema fundamental é exatamente a mento entre o ser humano pensante e o ser natural ou a physis. A maior preocupação desses primeiros filósofos era totalidade dos demais seres da natureza, ou seja, a natureza encontrar uma substância originária ou um princípio fun- damental a partir do qual todas as coisas seriam constituí- Um aspecto interessante de se levar em conta em rela- das. Visando solucionar alguns problemas derivados dessa ção aos filósofos pré-socráticos é o fato de alguns deles busca, os filósofos pré-socráticos que se seguiram estabele- terem sido também matemáticos. Thales de Mileto, consi- ceram algumas teorias de inegável universalidade concei- derado o primeiro filósofo da história do Ocidente, formu- tual, como, por exemplo, a tese sobre a constituição do lou os teoremas matemáticos iniciais, cuja validade é até universo a partir de quatro elementos; o conceito de matéria hoje reconhecida. Pitágoras, além de seu famoso teorema, e a hipótese de sua estrutura atômica; a idéia de uma harmo- estabeleceu a paradigmática fórmula "tudo é número", re- nia universal, atribuída por alguns deles à ordem matemá- tomada séculos mais tarde pela física de Galileu, embora tica, ou ainda as teses sobre as relações entre matéria e força descontextualizada da mística pitagórica que a gerou. Se, e entre orgânico e inorgânico. por um lado, a matemática garantia a alguns filósofos a O aspecto mais interessante dessas teses, que chegaram existência de uma ordem capaz de harmonizar a natureza a nós de modo tão fragmentado e algumas vezes obscuro, aparentemente caótica, por outro, uma certa preocupação está exatamente em seu poder de revelar problemas até hoje empírica norteava as teorias pré-socráticas. Matemática e relevantes, independente das diferentes soluções ou respos- empiria acabaram sendo também os eixos centrais que sem- tas que vieram a receber. É esse poder, aliás, que distingue pre sustentaram as ciências da natureza, e ainda o fazem essas teorias, atribuindo-Ihes caráter propriamente filosófi- atualmente. A filosofia da natureza, porém, afirmou-se a co e não apenas científico. Seu grau de universalidade per- partir de um desenvolvimento teórico que transcendeu a es- mitiu que elasse desenvolvessemao longo da história, perma- fera da experiência e da simples quantificação dos fenôme- necendo, entretanto, fiéis a sua origem, apesar da aquisição nos naturais. O próprio conceito pitagórico de número está de novos e diversos significados. O conceito de átomo, por muito longe de seu sentido vulgar instrumental. No núme- exemplo, desenvolvido inicialmente por Leucipo e Demó- crito de Abdera no século IV antes de nossa era, evoluiu ao ro, Pitágoras encontrava a possibilidade de afirmar a har- longo da história do pensamento a ponto de seu significado monia de dois princípios fundamentais, por ele denomina- dos "limitado" e «ilimitado". atual contradizer seu sentido etimológico original. O átomo há muito deixou de ser a parte indivisível da matéria; no A idéia de uma ordem numérica e geométrica também entanto, a força histórica e filosófica desse conceito é tão está presente na concepção cosmológica de Platão, assim intensa que seu emprego permanece, ainda que para descre- como a de uma harmonia cósmica e de uma alma do mun- ver fenômeno muito mais complexo do que se imaginava do, expressão de uma inteligência capaz de organizar e go- quando ele foi concebido na Antigüidade. vernar todas as coisas. Em geral, os gregos antigos pensavam o mundo como palmente, Schelling. A idéia de natureza auto-organizada finito, representando-o freqüentem ente pela figura geomé- ressurgirá ainda na chamada ecofilosofiada segunda metade trica do círculo. A finitude de uma esfera limitada era para do século XX, e é muitas vezes acompanhada pela imagem eles o que mais se adequava à idéia de perfeição. No entanto, da natureza como grande mãe. a limitação espacial não coincidia necessariamente com a A idéia de perfeição simbolizada pelo círculo está pre- limitação temporal; havia entre eles a imagem circular de sente também em Aristóteles, que se refere sobretudo ao um eterno retorno, representando a infinidade temporal. movimento dos astros, que ele considerava divinos e, por- Segundo descreve Platão, em sua obra intitulada Timeu, a tanto, constituídos de uma matéria diferente daquela pre- forma naturalmente concedida ao mundo é "a mais conve- sente no denominado mundo sublunar. niente ao animal que deveria conter em si mesmo todos os A contribuição de Aristóteles para o pensamento filo- seres vivos" e capaz de "abranger todas as formas existen- sófico da natureza é fundamental não só por seu talento tes", ou seja, a forma "de esfera", "a mais perfeita das formas para experimentação e pesquisa com espécimes naturais, e a mais semelhante a si mesma", a mais "bela". O mundo, mas principalmente por sua capacidade de sistematizar os segundo Platão, é animado não mais pelos deuses descritos conhecimentos que ia adquirindo ao longo de suas expe- riências com a natureza em um contexto filosófico mais na antiga mitologia, mas por uma alma própria, chamada "alma do mundo". amplo, articulando teorias específicas sobre a physiscom A idéia do círculo como parâmetro geométrico da per- teses metafísicas e lógicas. Na verdade, Aristóteles é o mais feição retoma muitas vezes em diferentes concepções de antigo dos filósofos a mostrar a diferença entre a ciência natureza ao longo da história, especialmente na época do empírica da natureza e o saber propriamente filosófico a Renascimento, como, por exemplo, na física de Galileu, respeito da mesma. Ele desenvolveu, por exemplo, a prática que, em nome desse princípio, recusa-se a aceitar a teoria de de dissecação de animais com a finalidade de compreender Kepler sobre o movimento elíptico dos planetas. E a idéia o funcionamento de seus organismos, identificando as dife- platônica de "alma do mundo" será retomada por alguns rentes partes, o que fez dele um importante precursor das renascentistas, especialmente pelo filósofo italiano do sécu- ciências empíricas. Contudo, sua mais importante contri- lo XVI Giordano Bruno, condenado à morte pela Inquisi- buição para a história do saber humano deu-se na esfera da ção da Igreja Católica sob a acusação de prática de bruxaria. especulação filosófica. As idéias de Bruno sobre a organização da natureza exerce- O conceito aristotélico de physispossui um duplo sen- rão profunda influência sobre os filósofos da natureza dos tido presente até hoje em nosso conceito de natureza. Aris- séculos seguintes, como Leibniz, Herder, Goethe e, princi- tóteles se refere, de um lado, àphysisde cada coisa específica, ou seja, à natureza particular de um ente determinado; de tipo de entendimento que pode ser interpretado como o outro, ele emprega o termo physis para descrever a totali- universal que permeia todas as coisas particulares. Essacon- dade dos seres existentes. Ambos os sentidos constituem cepção de um lagos presente na natureza fundamenta a igualmente conceitos filosóficos. O primeiro compreende a teoria aristotélica de teleologia. O verdadeiro fim racional idéia de princípio e causa do movimento (ou mesmo do da natureza é a realização de seu lagos, e a natureza já o repouso) de uma coisa determinada. Nessa acepção, a natu- possui nela mesma. Os seres da natureza encontram-se, reza de uma coisa é seu atributo essencial,aquilo que faz com assim, segundo Aristóteles, em uma cadeia hierárquica, na que ela seja o que é. Em seu sentido mais amplo, enquanto qual basicamente três níveis principais se sucedem: o vege- cosmo, a natureza reúne todas as qualidades originais exis- tal, o animal e o ser inteligível ou humano. tentes. Essatotalidade possui uma ordem ou um logos capaz Junto com a teleologia, outra teoria filosófica de Aris- de organizar os diferentes entes contidos na natureza. Ao tóteles sobre a natureza que sobreviveu aos séculos é o hyle- diferença r a natureza das coisas particulares, Aristóteles morfismo, termo composto por dois conceitos gregos tradi- constrói uma visão de mundo organizado hierarquicamen- cionalmente traduzidos por matéria e forma. É importante, te, de modo que cada ente tem seu lugar próprio, do qual se entretanto, lembrar que, em especial, o conceito grego de pode afastar por algum tempo, mas para o qual sempre ten- hyle muito difere de nosso conceito atual de matéria, assim derá naturalmente. como o conceito grego morphe diz mais do que o sentido É este o verdadeiro sentido do movimento na natureza, vulgar de forma. Para Aristóteles, formal e material dizem segundo Aristóteles: a busca de cada coisa para ser o que respeito a dois conjuntos diversos de causas responsáveis deve ser segundo sua natureza própria, ou, em outras pala- pelo movimento das coisas. A forma de um ser natural diz vras, uma necessidade imanente de atualizar suas próprias respeito a sua efetividade ou a seu acabamento, à chamada potências. A exceção estaria nos corpos celestes, considera- entelecheia - estado em que um ente realizou plenamente dos divinos não porque fossem dispensados de realizar mo- seu telas,ou fim. A forma é responsável, por exemplo, pela vimentos, mas porque o fato de o fazerem não implicaria- semelhança interna de uma espécie, já que cada um de seus como acontece com os corpos sublunares - o restabeleci- membros possui telasidêntico ao dos demais -, igual fina- mento de uma ordem eventualmente perdida. O movimen- lidade a ser efetivada. Por outro lado, a condição necessária to dos corpos celestes seria, ao contrário, a expressão perfei- para a realização da forma é a matéria. Sem ela, também não ta e eterna da ordem ou do lagos. é possível a concretização do fim último de um ente. No mundo em que vivemos existe também uma espé- No caso dos seres naturais, a matéria e a forma acabam cie de inteligência, a que Aristóteles chamava de naus, um se relacionando como princípios opostos. De um lado, a tendência para a estabilidade e a perenidade, que domina a o atomismo como início da forma; de outro, a tendência ao movimento, à mudança e ao secularização da natureza perecimento, que domina a matéria; naquele, há o predo- mínio do princípio da coesão; neste, o da dispersão. Aristó- A tese de que existiria um número limitado de partículas teles reconhece que o modo encontrado pela natureza para indivisíveis, cuja combinação daria origem a todas as de- manter o equilíbrio de ambas as tendências não se dá na mais substâncias compostas, é de profundidade e genialida- esfera particular de cada ente, mas sim na teleologia geral de sem iguais, especialmente se pensarmos que ela foi conce- das espécies, que garantem a autopreservação por meio da bida no século IV antes de nossa era. Segundo o comentado r reprodução. Esse fenômeno envolve também um movi- francês Robert Lenoble, autor de História da idéia de natu- mento temporal circular, ou seja, repetitivo, no qual dife- reza, o atomismo significa uma "vontade de atomizar a rentes gerações se sucedem em uma cadeia aparentemente natureza inteira" a fim de "torná-Ia penetrável ao espírito infinita. humano". De fato, a relação entre o finito e o infinito é um dos O atomismo ficou mais conhecido a partir da filosofia temas centrais da filosofia da natureza desde a Grécia antiga, de Epicuro, filósofo grego nascido em 342, cerca de 40 anos uma relação que pode ser também transposta para aquela depois de Aristóteles e considerado, portanto, seu contem- entre o universal e o particular. Em outras palavras, o antigo porâneo. A grande questão resolvida pelo atomismo de Epi- filósofo da natureza já buscava explicar como é possível que curo é, sem dúvida, a do movimento, também central na a natureza possua tantos e tão múltiplos entes e fenômenos filosofia de Aristóteles. Essa questão já havia sido posta na e ainda possa ser compreendida como uma totalidade. A ontologia pré-socrática de Heráclito e Parmênides. O pri- busca dessa unidade se expressa também na insistente busca meiro privilegiava o devir, enquanto passagem ou movi- de um princípio incondicionado na natureza. Enquanto mento do não-ser ao ser e vice-versa; o segundo, ao contrá- Thales, por exemplo, encontrara na água o fundamento rio, afirmava a diferença absoluta entre o ser e o não-ser, último para a constituição da natureza, Empédocles propôs reduzindo o movimento ou o devir à mera ilusão dos senti- reduzir o todo natural a quatro elementos: água, terra, fogo dos. O atomismo apresenta uma solução alternativa para e ar, os quais são, apesar de todo o desenvolvimento cientí- esse antigo impasse filosófico, inaugurando uma explicação fico, até hoje reconhecidos como fundamentais. Mas a teo- materialista e mecanicista, que tem como principal conse- ria sobre a constituição das coisas proposta na Grécia antiga qüência a desmitificação total da natureza. e que mais influência exerceu sobre nossa concepção mo- Uma característica importante da teoria atomista é a de derna de natureza é, sem dúvida, o atomismo. inserir o conceito de vazio ou nada no cerne da própria natureza, sem, contudo, afirmar a possibilidade de <\ueesse A principal dessas demonstrações dizia respeito à observa- nada venha a se tornar algo. O nada ou o vazio, segundo os ção das mudanças de estado físico das coisas, compreendi- ato mistas, é somente o espaço em torno dos átomos, o meio do, então, como essencialmente mecânico. no qual eles se movem e se chocam uns com os outros por O atomismo concebe, assim, em caráter pioneiro, o mero acaso. Por incrível que possa parecer, são exatamente movimento dos corpos a partir de uma mecânica que envol- esses conceitos negativos, como nada e acaso, que serviram ve seus estados físicos. O fato, porém, de limitar a constitui- de base a Epicuro para a afirmação da liberdade humana ção das coisas a um número finito de átomos e, em conse- que, por sua vez, fundamenta seu projeto teórico mais proe- qüência, pensar este nosso mundo como igualmente finito minente: uma filosofia moral. Se os átomos se movem ao não impediu que Epicuro imaginasse a existência de outros acaso e se as coisas se formam por um destino cego, então e infinitos mundos, todos constituídos pelos mesmos áto- não existem deuses capazes de determinar um destino, nem mos. E foi essa totalidade infinita de mundos que ele deno- para a natureza nem para a humanidade. A afirmação míti- minou universo. O universo de Epicuro é, ao contrário do ca dos deuses como causa dos fenômenos da natureza não cosmo, eterno. Nosso mundo limitado surgiu da combina- passava, também segundo Demócrito, de uma invenção ção meramente casual dos átomos, e irá um dia desaparecer humana a fim de dar sentido a certos fenômenos da nature- em função de um desligamento também contingente dos za que causavam muito espanto e temor, tais como trovões átomos. e relâmpagos. O processo de secularização da natureza iniciado pelo O atomismo é assim uma das primeiras formas de atomismo grego está longe de ser o momento mais compli- pensamento responsáveis pela secularização da natureza. E cado da relação entre o ser humano e o ser natural. Esta também um dos primeiros a propor uma doutrina da evo- torna-se realmente problemática a partir da adoção, por lução. Os atomistas acreditavam que a origem do homem parte das principais vertentes da filosofia medieval, da con- seria a própria terra, e que, assim como os vermes, teriam cepção de natureza como criada por uma única e onipotente surgido sem nenhuma destinação especial, apenas como divindade. fruto da combinação contingente da matéria. Outra tese fundamental dos atomistas é a de que o conhecimento hu- mano advém da sensação, que consistiria na impressão que A criaçãoda natura naturata e causam em nós os chamados "simulacros", ou seja, aquilo sua analogia com o livro sagrado que percebemos pelos sentidos. O fato de não percebermos sensivelmente os átomos não implicava, para os atomistas O dogma judaico-cristão do criacionismo estabelece não antigos, que sua existência não pudesse ser demonstrável. mais uma complementaridade (como na filosofia antiga), mas uma contradição entre a identidade e o estranhamento Essa metáfora, também denominada "analogia hermenêu- de espírito e natureza. De fato, em uma análise mais radical, tica", compara a natureza com a sagrada escritura, considera- ele representa uma espécie de retrocesso em relação ao tra- da até então pelos cristãos a fonte primordial de sabedoria, balho dos filósofos gregos antigos, na medida em que con- desde que, obviamente, se soubesse interpretar corretamen- siste no retorno de uma explicação mítica e dogmática da te a palavra divina nela contida. origem ou do princípio da natureza. Muito embora o dog- Esse não é um exemplo raro da história na filosofia ma cristão da criação atribua à natureza um aspecto imedia- medieval (cujos momentos mais propriamente filosóficos tamente divinizado e conseqüentemente espiritualizado em têm como um dos objetivos principais promover a concilia- sua origem, a relação de um deus transcendente (e, portan- ção entre o pensamento racional e o pensamento mítico to, supranatural) com a natureza nunca é totalmente ime- presente nos dogmas cristãos) de um círculo lógico vicioso, diata, ou, pelo menos, não de todo clara. em que a condição do saber acaba se tornando também sua A concepção filosófica medieval de natureza abriga finalidade última. Ou seja: a sagrada escritura é a palavra uma ambigüidade. Dentre os representantes mais impor- divina, por meio da qual se alcança a verdade; para interpre- tantes dessa tradição cristã, destaca-se santo Agostinho, um tá-Ia, porém, é preciso possuir determinado conhecimento, dos responsáveis por acentuar o duplo sentido do conceito o que supõe uma capacidade prévia para reconhecer o ver- de natureza. Na verdade, segundo Agostinho, existiriam dadeiro. Essa imediata contradição justifica, então, a neces- duas naturezas opostas, uma denominada natura naturans, sidade da intermediação do sacerdote no acesso ao saber e, que é propriamente o criador de tudo, Deus, e outra chama- conseqüentemente, todo o poder hierárquico da instituição da natura naturata, que corresponde à criação ou à obra Igreja. A analogia hermenêutica iniciada com Agostinho criada. Na Idade Média, aparecem várias diferentes teorias estabelece, entretanto, uma abertura nesse círculo do saber sobre a relação entre Deus e a natureza criada, incluindo imediatamente proposto pela teologia, na medida em que algumas de influência platônica, como a do pseudodioniso, aponta para a natureza como uma segunda fonte possível do século V, que, em lugar de oposição, afirma uma relação para a iluminação do espírito. Contudo, a natureza é, de de complementaridade entre ambos. A possibilidade, con- acordo com Agostinho, uma espécie de livro sagrado escrito tudo, de se entender uma possível conciliação entre natura ainda em linguagem cifrada e cuja decifração se dá muito naturans e natura naturata encontra-se na idéia de que a mais por contemplação e mesmo intuição estética do que natureza é uma espécie de "espelho", no qual se refletiria a pelo entendimento propriamente dito. Em sua obra inti- própria imagem do Criador (imago Dei), ou ainda pela me- tulada Enarrationes in Psalmos, o bispo de Hipona acon- táfora de um livro sagrado, já presente em santo Agostinho. selha a seus leitores em tom quase imperativo: "Que a pá- gina divina seja para você o livro que permite ouvir falar alfabeto no qual Deus escreveu o universo". Permanecem destas coisas, e que a terra seja para você o livro que permite iguais a metáfora e o pressuposto: a natureza é criação divi- vê-Ias." na. Mas a substituição de uma cifra a ser compreendida pela A grande vantagem da instauração dessa metáfora do fé ou a contemplação estética por uma linguagem matemá- livro da natureza é o fato de o crente poder dispensar a tica que só pode ser decifrada pela ciência - a qual final- intermediação da autoridade do sacerdote. Agostinho inau- mente começaria a se estabelecer como fonte de verdade gura uma síntese a partir da exterioridade da fé cristã em mais segura, independente da fé - provocaria uma mudan- uma divindade transcendente e da interioridade de uma ça definitiva. Sua principal característica é a gradativa secu- reflexão fundada sobretudo na sensibilidade e na intuição. larização da natureza, sua dessacralização, total objetivação Do ponto de vista da transformação do conceito de nature- e destinação ao entendimento e à ação dos seres humanos. za, Agostinho rompe ainda com a famosa contradição pre- Essa tendência aprofunda-se com o advento das ciências da sente no mito judaico-cristão da queda do paraíso, que natureza propriamente ditas, sobretudo da física mecanicis- acaba por cindir a natureza em dois sentidos opostos: um ta moderna. como fonte de prazer ou como meio da unidade imediata A matematização do universo, contudo, pode ser en- com o divino; outro como fonte do pecado, dando origem contrada ainda no pensamento medieval, especialmente na ao sentimento humano de cisão e de falta, só remediável obra de Thierry de Chartres, francês do século XII defensor pela redenção e pela graça. A analogia hermenêutica da de uma ordem racional da física, uma espécie de lei que nem natureza devolve-lhe assim, um sentido divino, ainda que mesmo o criador poderia transgredir. Nessa nova corrente, ele esteja imediatamente oculto. a filosofia medieval tenta encontrar na própria escritura, em A analogia entre o livro sagrado dos cristãos e a nature- particular no livro do Gêneses, indicações matemáticas que za enquanto símbolo a ser decifrado ressurge muitas vezes explicariam racional e fisicamente a natureza criada; é o ao longo da história da filosofia, tanto em obras de filósofos caso do escolástico Boaventura, místico neoplatônico que cristãos, como é o caso do De tribus diebus, do escolástico decodifica cada um dos seis dias da criação em diferentes Hugo de Saint-Victor, que descreve a natureza como um esferas físicas da natureza, dividindo, por exemplo, a natu- livro "escrito pelo dedo de Deus" (scriptus digitus Dei), reza celeste em três diferentes céus - o empírico, o cristali- quanto nas obras de cientistas renascentistas, por exemplo no e o firmamento - a fim de tornar coerente a descrição Galileu Galilei, que traduziu a idéia do código sagrado da aparentemente irracional da doutrina da criação. natureza como a de um código matemático, definindo a Mas é sem dúvida Tomás de Aquino, diretamente in- matemática, e mais especificamente a geometria, como "o fluenciado pela filosofia aristotélica, o responsável, nesse período medieval e cristão da história da filosofia, por apre- uma espécie de região intocável. Nesse período do Renasci- sentar uma idéia de natureza a mais racional possível. Ele mento, encontramos alguns ícones da filosofia da natureza também diferenciou natura naturans e natura naturata, es- com visões quase diametralmente opostas. De um lado, tabelecendo como principal possibilidade de relação entre Paracelsus e Giordano Bruno, com concepções considera- elas o princípio de causalidade. A metáfora do livro da das vitalistas e organicistas; de outro, Roger Bacon e Galileu natureza é então de todo eliminada, e os fenômenos físicos Galilei, com suas concepções empiristas e mecanicistas. Es- ganham uma explicação causal, seguindo também um prin- tas últimas predominarão no pensamento dos principais cípio de continuidade. Os seres da natureza são de novo fundadores das ciências da natureza desenvolvidas no início expostos em uma escala hierárquica, cujo topo é natural- da modernidade. mente Deus ou o ensperfectissimum. O mecanicismo característico do final do século XVII Essa releitura cristã feita por Tomás de Aquino da idéia tem algumas semelhanças com o atomismo, sobretudo por de um desenvolvimento teleológico e hierárquico da natu- sua análise dos fenômenos da natureza em função do movi- reza ecoará sobre a concepção moderna; porém, o princípio mento dos corpos e de suas características físicas. Mas, ao que rege esse desenvolvimento será gradativamente esva- contrário do atomismo, ele não mais concebe uma parte ziado de qualquer sentido transcendente. O resultado dessa última e indivisível da matéria como elemento fundante da nova secularização será o mecanicismo moderno. natureza, e sim as formas geométricas, que são divisíveis ad infinitum. A explicação formal predomina, assim, sobre um fundamento material, e a essência do mecanicismo será A concepção mecanicista da natureza exatamente a possibilidade dessa abstração matemática da como um imenso relógio realidade, eliminando também qualquer conseqüência prá- tica ou moral de suas teorias, marcante ainda na teoria A grande diferença da concepção moderna de natureza em ato mista. relação ao período medieval é uma gradual independência Junto com essa abstração, contudo, há um novo resgate entre o saber filosófico e científico, de um lado, e a teologia, da metáfora do livro da natureza, em especial por parte de de outro. Essa independência, contudo, não resultará ainda Galileu, que em sua obra O ensaiador,de 1610, afirma que a na superação da divisão entre natura naturans e natura linguagem própria deste livro da natureza que é o universo naturata. Com o início da chamada ciência nova, no século e cujos caracteres demandam apreensão prévia é exatamen- XVI, a natura naturata passa a ser o foco principal das te a "língua matemática". Essa linguagem matemática é de pesquisas, enquanto a natura naturans permanece como fato a geometria, já que as chamadas "letras" do universo são descritas por Galileu como formas geométricas básicas: tóteles, por outro lado ele reforça de modo decisivo a analo- triângulos, circunferências etc. No entanto, é no âmbito da gia da natureza com uma grande máquina. Ele também filosofia propriamente dita que o mecanicismo resulta em utiliza a imagem de um imenso relógio cujo movimento, maior formalismo. causado por um impulso inicial, seria capaz de manter-se Também René Descartes, filósofo francês considerado em certa continuidade. A imagem de natureza como um o "pai da nova filosofia", compartilha da idéia de uma cons- autômato contrapõe-se à idéia de uma alma do mundo ou tituição geométrica da natureza, porém vai adiante ao redu- de natureza animada. A natureza como máquina não tem zir o fundamento material de todo o universo à chamada alma nem qualquer outro princípio imanente capaz de ex- "matéria extensa", ou seja, ao reduzir toda a matéria natural plicar seu movimento ou mesmo a existência da vida. Todos à forma pura da extensão. Essa extensão, observa ele em os fenômenos naturais, incluindo os de ordem orgânica e Princípiosdafilosofia, de 1644, é passível de receber todas as envolvendo também a anatomia humana, seriam expli- afecções possíveis resultantes do movimento de suas partes, cados de forma mecânica a partir da regra da causalidade. pois que tem como principal propriedade ser divisível em Esta é, contudo, fundamentalmente exterior, pois, embora infinitas partes. Todas as qualidades dos corpos materiais se constitua como lei que rege o movimento de toda a apreendidas por nossos sentidos, tais como dureza, peso, matéria extensa, baseia-se na idéia inicialmente atomística cor, etc., são reduzidas àquilo que Descartes considerava a da colisão dos corpos, refinada agora pela teoria físico-ma- verdadeira essência da natureza: a substância extensa. Essa temática da transferência e do equilíbrio de forças entre os substância não pode ser apreendida pelos sentidos; pode, corpos que se chocam. porém, ser concebida matemática, ou, melhor, geometrica- O problema desse tipo de concepção mecanicista é que mente, por meio de suas três dimensões. A explicação de por mais que o pensador racionalista do século XVII possa Descartes para o movimento da matéria extensa aproxima- eleger como objeto de seu estudo a natura naturata, deixan- se de certa forma da explicação atomística, com a importan- do praticamente de lado a natura naturans, sempre restará te diferença de foco sobre a mudança de estados - que seria uma inevitável dúvida em torno do possível relojoeiro, ou resultado da colisão das suas partes constituintes. Essa coli- seja, sobre a causa originária ou finalidade última dessa são, por sua vez, seria absolutamente acidental, obedecen- imensa construção chamada natureza. O enigma do relo- do, entretanto, a uma determinada regularidade que torna- joeiro inicia-se com a tese mecanicista de que só o movi- ria possível nossa apreensão do movimento. mento pode ser causa do movimento. Isso acarreta a idéia Se, por um lado, o mecanicismo cartesiano se afasta de de uma corrente causal infinita, sobretudo quando seu de- uma concepção teleológica da natureza, tal como a de Aris- fensor não deseja atribuir a causa originária às mãos sobre- naturais de um criador ou deus. Seja como for, o que está método de observação empírica da natureza e uma forma definitivamente perdido na concepção mecanicista é a anti- de racionalidade que deveria ser, acima de tudo, criativa. ga idéia de um círculo perfeito, a idéia de natureza como um Essa síntese é descrita pela imagem da transformação de um todo sistêmico. Por outro lado, o que está em jogo em torno ser vagarosamente rastejante em um ser alado. Nessa me- do enigma do relojoeiro ou da natureza como moto conti- táfora da metamorfose, a primeira forma simboliza a física nuum é a própria idéia de determinismo. Perde-se o sentido mecanicista, e a segunda, a física especulativa. Diz o texto da liberdade, em especial quando o ser humano é visto em tom poético e ao mesmo tempo subjetivo: "Eu gostaria como mais uma engrenagem desse imenso mecanismo. Se de devolver as asas à nossa física, que caminha vagarosa e a concepção mecanicista da natureza foi extremamente im- com esforço por meio de experimentos." As asas devolvidas portante por alavancar o desenvolvimento das ciências em- à física a fim de libertá-Ia de seu peso e vagar decorrentes de píricas da natureza, as críticas filosóficas suscitadas em rea- um excessivo cuidado em ater-se ao método empírico ção à concepção mecanicista constituem o momento de seriam recuperadas de um passado que remete claramente maior maturidade jamais alcançado pela filosofia da natu- ao conceito antigo de physis.O fragmento, porém, aponta reza. A solução filosófica mais consistente surgida dessa essa libertação como um ideal a ser realizado em tempo crítica será implementada com o projeto schellinguiano da futuro. chamada física dinâmica ou física especulativa. Ainda em de 1797 Schelling publica um importante escrito intitulado Idéias para uma filosofia da natureza, que atua como uma espécie de casulo, preparando a transfor- A libertação da natureza pela mação do pesado conceito de natureza como máquina em física dinâmica de Schelling outro, novo, mais leve e sobretudo mais livre. Essa obra inaugura uma série de textos escritos até 1812, que juntos o projeto de uma nova física que substituísse a física meca- desenham um dos mais belos vôos especulativos da idéia de nicista predominante na idade moderna surge de forma natureza em toda a história da filosofia. paradigmática no fragmento datado de 1796 ou 1797 e in- É importante salientar que a crítica de Schelling à ciên- titulado "O mais antigo programa de sistema do idea- cia mecanicista não parte de uma simples relação de exterio- lismo alemão", provavelmente concebido pelos jovens ridade com ela, pois o autor tinha profundo conhecimento Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Friedrich Hõlderlin e teórico da ciência. Schelling estudou, além de filosofia e Friedrich Wilhelm Joseph Schelling. Nesse pequeno texto é teologia, matemática, ciências naturais e medicina, e parecia proposta uma espécie de síntese entre a objetividade do sempre informado dos últimos resultados das pesquisas científicas de sua época no campo da física, da química e da cepção encorajou Schelling a recuperar em sua filosofia da medicina. Seu interesse aprofundou-se principalmente em natureza a antiga idéia de um princípio imanente, abando- relação às descobertas sobre a eletricidade e o magnetismo, nado pela ciência fundada apenas em uma relação causal com suas aplicações no campo da fisiologia. Exemplos de exterior. Na fisiologia e na biologia emergentes, Schelling experiências científicas dessa época que causaram grande encontrou o respaldo necessário para sua idéia de natureza impacto sobre o pensamento de Schelling são a descoberta fundada menos na relação exterior de forças mecânicas e de Lavoisier, em 1775, sobre a constituição do ar por hidro- mais em sistemas orgânicos cíclicos. gênio e oxigênio e os experimentos de Galvani com a eletri- A relação de Schelling com a medicina foi bastante cidade em 1791, que não só possibilitaram a transformação fértil e, ao mesmo tempo, polêmica. Algumas de suas idéias da energia química em energia elétrica mas também culmi- afrontaram vertentes mais tradicionais da medicina, ainda naram na descoberta da eletricidade animal. fortes em sua época. Simultaneamente, Schelling colaborou Outras teorias científicas influenciaram Schelling em e trabalhou com alguns importantes cientistas dessa área, sua concepção filosófica da natureza, tais como a chamada sobretudo com o médico A.F. Marcus, com quem fundou "doutrina da excitação" (Erregungslehre), formulada pelo em 1805 os Anuários deMedicina como Ciência,no qual são médico escocês John Brown, e a "doutrina do desenvolvi- publicados,pela primeira vez,os Aforismossobreafilosofia mento" (Entwicklungslehre),do biólogo alemão Carl Fried- da natureza(algunsdos quaistraduzidos no finaldestevo- rich von Kielmeyer. Brown definia a vida como um estado lume). Esses anuários, editados até 1808 no total de seis de excitação e concebia a doença como decorrência de um fascículos, constituem a primeira realização de um projeto desequilíbrio de forças no organismo vivo. Kielmeyer fun- de aproximação entre teorias fundadas na ciência empírica dou a anatomia comparada e estendeu seu conceito de "de- da natureza e outras de cunho inteiramente filosófico. Os senvolvimento" a todos os organismos vivos, em teoria des- artigos ali apresentados tratam de temas que vão da febre crita na obra de 1793intitulada Sobrea relaçãodasforças amarela (Eschenmayer, 1806) à doutrina da alma (Schel- orgânicas. eriamtrês as forças orgânicasfundamentais:a S ling, 1807); do uso do ferro na medicina (Marcus, 1806) à sensibilidade, a irritabilidade e a reprodução. Em uma pas- força curativa da natureza (Walther, 1808), passando pela sagem dessa obra, Kielmeyer parece antecipar um certo farmacologia (Oken, 1806). A síntese ensaiada ali entre a discurso ecológico de nossa contemporaneidade quando idéia de natureza e sua experiência científica é pela primeira afirma que "A força pela qual o desenvolvimento do indiví- vez teorizada por Schelling em seu escrito de 1797, a partir duo acontece é a mesma força pela qual diferentes organi- da concepção de uma "intuição intelectual" (intellektuallen zações da Terra são levadas à existência". Esse tipo de con- Anschauung) que possibilitaria uma apreensão da natureza capaz de superar toda a reflexão abstrata ainda fortemente movimento. O fato de essa subjetividade imanente à natu- presente nas tradições filosóficas e científicas da tnoder- reza constituir-se como um princípio imaterial ou ideal não nidade, na medida em que intuída seria a própria inteligên- a reduz a uma apreensão meramente formal, como era o cia ou o espírito imanente à natureza, descrita então ape- caso da geometria no contexto da concepção cartesiana de nas como "idéia objetivada". Ainda nessa obra de 1797, matéria extensa. O princípio schellinguiano da produtivi- Schelling lançou uma de suas mais importantes máximas dade que rege o movimento da natureza pode ser apreendi- sobre a natureza, na qual a descreve como "espírito visível" do por meio dos produtos objetivados da natureza, espe- e o espírito como "natureza invisível", propondo então uma cialmente daqueles que, de forma explícita, atualizam em si "absoluta identidade do espírito em nós e da natureza fora esse princípio, isto é, dos seres da natureza capazes de, por de nós". si mesmos, promover sínteses, desenvolver processos e rea- A síntese entre idéia de natureza e natureza objetiva é lizar movimentos. expressa de modo ainda mais elaborado no escrito de 1799, Schelling concebe a natureza como um todo cujo de- intitulado Primeiro projeto de um sistema da filosofia da senvolvimento se dá segundo uma dinâmica também histó- natureza. Nessa obra, Schelling pretende superar a diferença rica, de modo que, ao contrário, do que possa imediatamente entre natura naturans e natura naturata imposta por uma parecer, ela percorre um caminho próprio de autoforma- longa tradição reflexiva, através da idéia de um princípio de ção no espaço e no tempo. E nós, seres humanos, livres e "produtividade" que seria o fundamento de todo movimen- autoconscientes, somos não apenas parte ou fim último to da natureza. Se, por um lado, tal como qualquer outro dessa sua história, mas o meio pelo qual ela finalmt;nte é princípio filosófico, a "produtividade" não pode ser apreen- revelada. Nesse sentido, há para Schelling uma continuida- dida pela experiência, por outro, ao contrário dos demais de e mesmo uma relação necessária entre o mundo real da princípios ideais, a natureza enquanto produtividade pode natureza e o mundo ideal do conhecimento. Ambos são ser revelada por seus produtos, ou seja, na natureza enquan- como duas dimensões de um mesmo e único todo absoluto, to objeto, que equivaleria à natura naturata. com a diferença de que, no início, a idéia se encontra - A grande ousadia da filosofia da natureza de Schelling como já havia afirmado Leibniz - em uma espécie de "es- está exatamente em subverter a clássica idéia de natureza tado de sono da matéria" ou, como dirá propriamente apenas enquanto objeto e, mais especificamente, a separa- Schelling, na forma de "natureza inconsciente". Aliberdade ção cartesiana entre a resextensa e ares cogitan, ou seja, entre ou a autoconsciência humana constitui assim o completo a natureza e o sujeito. Schelling concebe a natureza também despertar do sono da matéria. Essa liberdade, alcançada como sujeito, isto é, como atividade que produz seu próprio pelo advento histórico da razão que se sabe a si mesma, serve então como pressuposto e até como condição de possibi- qüentemente, só se efetiva ou se completa, para e em um ser lidade para a construção de um pensamento especulativo capaz de intuir e de refletir, ou seja, para e no espírito sobre a natureza e, conseqüentemente, sobre o pensamento humano propriamente dito. Com isso, Schelling explica que envolve uma forma de projeção real da liberdade no como esse mesmo espírito teria sido conduzido, desde a mundo natural, na medida em que esse se apresenta como Antigüidade, à "idéia de uma matéria auto-organizante" ou "reflexo", "expressão" ou "reprodução" (no sentido daAb- a "uma unificação originária do espírito e da matéria" nas bildung) da liberdade da autoprodução da idéia, que é abso- coisas da natureza. A conseqüência principal dessa nova luta. concepção histórica e ao mesmo tempo "genética" (gene- tisch) de natureza está no que Schellingcaracterizacomo "inversão de todo dogmatismo a partir de seu fundamen- A autoforma~ão da natureza to", pois o círculo sistemático que insere o espírito humano a partirdo dualismo originário no cerne da história evolutiva da natureza é o mesmo que estabelece a continuidade entre o pensamento filosófico e a Em Idéiaspara uma filosofia da natureza, Schelling relembra própria razão imanente à natureza. A filosofia, segundo a antiga idéia platônica de um princípio vivificante que Schelling, é "uma doutrina da natureza de nosso espírito". perpassaria a totalidade do mundo, denominado "alma do Com isso tam.bém ele resolve o problema da separação entre mundo" (Weltseele), descrevendo-o como uma espécie de experiência e especulação. Especular sobre a natureza é ex- "crença natural" que habita o espírito humano, cujo funda- perimentá-Ia através de nosso espírito, cujo sistema é con- mento ele parece finalmente ter encontrado. A relação de comitante ao da natureza, ou seja; é tomar consciência de imanência entre lagose physisé reformulada por Schelling que a relação entre ambos é análoga à de dois espelhos que, por meio da questão da origem dos corpos organizados ou posicionados um de frente para o outro, multiplicam seu da formação dos organismos. Segundo Schelling, é necessá- reflexo ou suas imagens ao infinito. rio aproximar em um só sistema a necessidade de ordem e No Primeiro projeto de um sistema da filosofia da natu- a contingência dos produtos dessa organização. A necessi- reza, Schelling descreve a atividade absoluta da natureza dade se revelaria na constatação de que a existência (Dasein) como co-presença de dois princípios opostos que lembram dos seres naturais, e não simplesmente sua forma, estaria aqueles descritos por Aristóteles para explicar o movimento em conformidade a fins (zweckmiifiig). A contingência, ao da physis.O primeiro teria uma característica mais subjeti- contrário, se encontraria pela compreensão de que essa va, pois consistiria no princípio da produção; o segundo, mesma conformidade a fins só pode ser revelada e, conse- mais objetivo, ele denomina princípio da resistência (Hem- mung). A dualidade de forças, presente na constituição tan- mais aparente, aquilo que não podemos apreender superfi- to da natureza quanto do espírito, acompanha o pensamen- cialmente por nossa reflexão dicotômica, ou seja, a profun- to de ScheUingpor um período abrangente de sua obra. A didade oculta da natureza é uma espécie de sujeito, de ato tese scheUinguiana do dualismo fundamental da natureza absoluto e eterno de produtividade. A inevitável compara- acaba também por reforçar a imagem de circularidade do ção com a imagem de nosso planeta só é interessante para processo de desenvolvimento da natureza enquanto ciclo indicar a distância (geométrica) entre superfície e centro de infinito de produção. Essa imagem, porém, ganha profun- uma esfera cósmica. Schelling, entretanto, não pensa literal- didade pela necessidade que esse filósofo tem de explicar a mente no planeta. Para ele a natureza subjetiva não é algo evolução, ao longo do pensamento filosófico sobre a natu- material e sim apenas ideal. O princípio da produtividade reza, da compreensão desse dualismo originário para a di- imanente à natureza é em parte responsável por todo o cotomia presente no pensamento reflexivo responsável por movimento existente, não enquanto um primeiro motor criar um dos problemas mais difíceis da filosofia: a dúvida contínuo - o que novamentetraria a representaçãolinear acerca do conhecimento verdadeiro ou, antes, a absoluta do movimento -, mas apenas na medida em que esse prin- distinção entre sujeito e objeto. A questão que se coloca é a cípio se encontra em eterna relação dinâmica com seu princí- seguinte: como é possível que a natureza - essa totalidade pio contrário, que é uma espécie de princípio de antiprodu- absoluta que, desde sua origem, realiza a unidade entre o tividade ou de obstáculo para a produção. É só a partir dessa objetivo e o subjetivo - seja apreendida e transformada, dinâmica que o movimento de organização da natureza se pelo pensamento humano, na forma unilateral de um obje- fecha em um ciclo infinito. O obstáculo à produtividade to completamente distinto do sujeito, agora centralizado capaz de fazê-Ia voltar-se contra si mesma formando um apenas no próprio pensamento humano? círculo infinito encontra-se exatamente na superfície mate- A resposta de ScheUing a essa questão parte de sua rial da natureza, em sua objetividade. coerência em considerar a natureza como absoluta e, conse- Schelling substitui, assim, a idéia atomista de que o qüentemente, responsável por todos os seus processos in- movimento surge da colisão dos corpos e a teoria da física ternos, incluindo o desenvolvimento do pensamento mecanicista segundo a qual as forças de atração e repulsão humano enquanto uma de suas potências. Considerar a também se originam da interação de forças das partículas da natureza em sua objetividade é considerá-Ia apenas em sua matéria por uma teoria de que a matéria se auto-organiza superfície (Oberfliiche), explica ScheUing. Mas a natureza em função da interação do princípio subjetivo de produti- enquanto totalidade é uma imensa esfera. Por outro lado, a vidade da natureza e de seu princípio objetivo de contenção superfície não está "fora" da natureza, é apenas seu lado dessa produtividade. A fim de explicitar sua recusa da teoria mecanicista de no interior dos seres orgânicos com os movimentos consi- causalidade exterior para explicar o movimento dos corpos, derados simplesmente físicos. E não apenas isso. Para ele, Schelling recorre, especialmente em sua obra de 1797, à tese não é possível eliminar o fenômeno da luz de nenhum pro- adotada pela filosofia de Leibniz da harmonia preestabele- cesso existente da natureza, e não porque a luz fosse capaz cida do mundo, capaz de unificar o todo não como algo que de sozinha promover o movimento de um corpo inanimado domina e oprime a multiplicidade de coisas do universo, nem porque corpos animados não se pudessem mover du- mas sim um pensamento que as apresenta como absolutas rante a noite devido à ausência de luz. O que Schelling em si mesmas e existindo, ao mesmo tempo, no absoluto, começa a elaborar é uma complexa teoria sobre o que mais ou seja, no todo que é a natureza. Como exemplo da equi- tarde se compreenderá apenas como energia. vocada redução dos fenômenos originalmente dinâmicos A chamada "identidade universal" entre gravidade e da natureza a uma relação meramente mecânica promovida luz pode ser igualmente compreendida a partir da relação pela ciência da natureza moderna, Schelling toma a teoria dinâmica de duas tendências opostas que se manifestam em da gravidade universal de Newton, que se basearia na com- uma dimensão ainda mais profunda da natureza. Juntas, preensão limitada de que a gravitação de nosso planeta é elas constituem um único princípio imanente a todos os causada por sua atração pelo solou por outros corpos celes- corpos do universo, capaz de produzir todo o movimento tes; segundo Schelling, porém, a verdadeira gravitação se dá da natureza em torno da matéria. Essas duas tendências, em relação à substância absoluta que é a própria matéria em descritas como centrífuga e centrípeta, constituem, segun- sua forma pura. Schelling explica o movimento dos corpos do Schelling, "duas unidades da idéia", enquanto o "ritmo não simplesmente pela teoria de uma gravitação universal e a harmonia do movimento surgido delas" constituem "o fundada em cálculos matemáticos e mecânicos, mas afirma reflexo da vida absoluta de todas as coisas". Entretanto, esse que a gravidade interage de modo decisivo com a luz, de movimento não pode ser apreendido por um modo de pen- modo a juntas provocarem o movimento dos corpos na sar reflexivo, que costuma cindir a natureza em partes in- natureza. A relação dialética entre gravidade e luz ou entre conciliáveis, eliminando, assim, qualquer vida ou alma da matéria e luz pode parecer estranha, principalmente quan- natureza e reduzindo a matéria a uma presença morta. do situada em um período da história em que muito pouco A recusa em relação à concepção atomística da nature- se sabia sobre o fenômeno e a própria constituição da luz, za apresenta-se na filosofia da natureza de Schelling, em dividida ainda entre a teoria da onda e a idéia de sua mate- especial por seus principais pressupostos, que são o conceito rialidade. Pela tese da unidade de gravidade e luz, Schelling de vazio e a idéia de um corpúsculo indivisível. O problema se propõe a aproximar os processos naturais que ocorrem deste último conceito não está na idéia da indivisibilidade. constituía então material de pesquisas polêmicas e revolu- o próprio Schelling admite um certo conceito de átomo não cionárias. Em sua liberdade para especular e criar teorias para descrever uma partícula material, mas como figura do fundadas apenas na racionalidade, o filósofo da natureza pensamento que representa uma entidade dinâmica, impos- possui uma vantagem em relação ao cientista. Um dos saltos sível de ser apreendida empiricamente, mas cujos dinamis- teóricos realizados por Schelling e que preparou o terreno mo e movimento podemos racionalmente compreender. O para uma nova forma de pensamento evolutivo sobre a que Schelling critica no conceito mecanicista de átomo é a natureza diz respeito à idéia de auto-organização expressa impossibilidade de ele ser pensado como detentor das forças em sua teoria sobre diferentes potências e dimensões da fundamentais da matéria responsáveis por sua integridade natureza. e por sua desintegração. O átomo dinâmico de ScheUing conteria em si mesmo essas forças; por isso não seria uma partícula indivisível, e sim uma figura ideal. Essas forças, porém, já não seriam mais as que regiam a mecânica da A teoria schellinguiana das diferentes dimensões da natureza física newtoniana, ou seja, a coesão e a repulsão, definidas a partir da relação entre dois corpos externos. As forças opos- Apresentada inicialmente em 1799, a teoria de ScheUingdas tas fundamentais que regem também a constituição dos potências descreve um processo de desenvolvimento da na- átomos são agora aquelas da produtividade e da contenção tureza, cujo primeiro momento consiste no que eledenomi- desta, ou antiprodutividade. na "construção do universo" (Weltbau). Já nessa etapa há Principalmente a partir da aproximação com o físico e uma divisão do mundo em dois planos paralelos, sendo um químico alemão J.W. Ritter, autor de um importante traba- uma espécie de reflexo ou plano refletido do outro, tal como lho publicado em 1798 em que pretendia demonstrar, no um espelho. O primeiro deles constitui o plano universal processo da vida dos animais em geral, a existência de um propriamente dito, também chamado de macrocosmo; o fenômeno que denominou "galvanismo constante", ou segundo, ao contrário, é o plano singular ou microcosmo. seja, de processos envolvendo a eletricidade e a transforma- Este último se manifesta na formação, ou seja, na constitui- ção química da matéria, Schelling aprofunda cada vez mais ção das formas de todos os corpos da natureza - a "série suas especulações filosóficas sobre processos antes restritos dos corpos" (Kõrperreihe), segundo o filósofo. Ambos os ao mundo físico, aproximando-os dos fenômenos ligados à planos são idênticos, na medida em que, juntos, são respon- geração e à manutenção da vida. Algo que hoje a ciência sáveis pelo que Schelling nomeia "formação-em-um" ou considera absolutamente indiscutível, como as relações en- "imaginação" (Einbildung) do infinito no finito, de modo tre os processos elétricos, químicos e fisiológicos do corpo, que cada novo corpo formado no universo é ele mesmo o Nessa concepção de uma relação fundamental entre o reflexo finito da infinitude da totalidade. corpo e a luz, Schelling já aponta para a necessidade de Esse momento do auto desenvolvimento da natureza integrar várias dimensões da matéria. A luz é o elemento corresponde a sua primeira potência. O termo potência cuja força predominante é a expansão, contrária à força de possui conotação não apenas filosófica, que poderia ser coesãoque predomina no corpo. Arelação dinâmica de ambos associada com o conceito aristotélico, mas fundamental- os elementos dessa segunda potência gera, assim, uma espé- mente matemática e sobretudo geométrica. Cada potência cie de equilíbrio não estático entre a integridade do corpo e da natureza tende a elevar-se a outra potência e, ao mesmo sua possibilidade de movimento. A incisão do plano univer- tempo, a desdobrar-se em outra dimensão. No caso da pri- sal da luz sobre o plano das singularidades dos corpos é meira potência, além do processo construtivo da formação imediatamente capaz de elevar de novo essa singularidade, da série dos corpos, surge paralelamente outra relação dia- que constitui o próprio plano da finitude, a uma universali- lética entre o finito e o infinito, descrita por Schelling como dade infinita, ou seja, a uma nova potência ou a uma nova "formação em retrocesso" (Zurückbildung), na qual o pro- dimensão da matéria, capaz de integrar as duas unidades cesso inverte sua direção, passando a se dar "do particular anteriores, mediante a síntese absoluta entre matéria e luz. em direção ao universal" ou à "essência", dando origem, Essa nova dimensão da matéria, correspondente a sua ter- assim, à segunda potência. Essa segunda potência estaria, ceira potência, constitui o organismo vivo. segundo Sche1ling, inda subordinada à primeira potência ou a O ponto culminante da chamada "física dinâmica" à primeira unidade entre o infinito e o finito, à potência concebida por Schelling encontra-se, portanto, em sua con- formadora e propriamente dominante. No nível da segunda cepção da natureza orgânica. Essa posição de destaque do potência há novamente uma duplicação de planos: um uni- organismo não implica uma corrente causal, em que a na- versal e outro particular. O primeiro plano corresponde à tureza orgânica seria mera conseqüência do movimento da luz, o segundo, ao corpo. Nesse nível do processo de forma- matéria inorgânica, semelhante ao pensamento atomista e ção da natureza, correspondente à segunda potência, a rela- mecanicista, que definia como causa do movimento de to- ção entre os planos opostos não é apenas especular, tal como dos os seres a colisão das partículas elementares indivisíveis, na primeira potência, pois o que existe é uma incidência de ora entendidas como átomos, ora como elementos geomé- um sobre o outro, que tem como resultado sua constituição tricos da matéria extensa. Na filosofia da natureza de Schel- mútua. Aqui, contudo, não se trata de nenhuma relação ling, o organismo se revela não como efeito ou resultado do causal externa, pois o corpo não pode ser sem a luz, e a luz movimento aleatório da matéria, mas como fundamento da não pode ser sem o corpo. natureza em sua totalidade. Pode-se interpretar o predomí- nio do conceito de organismo na filosofia da natureza de que se encontra trancado em um maravilhoso escrito secre- Schelling apenas como analogia entre a organização da ma- to". A escrita em questão não é mais simplesmente uma téria orgânica e a ordem cósmica universal. Entretanto, linguagem cifrada que exigiria a interpretação correta de mais do que um simples recurso de linguagem, Schelling um místico ou de um matemático, mas é a expressão poética encontra no conceito de organismo uma espécie de simbo- que constitui simultaneamente um meio de revelação e de lismo concreto no interior da própria natureza. Este consis- ocultamento da idéia. Por isso o modo de produção natural, te em um processo de formação de imagens naturais (e não enquanto ato de ser próprio da natureza, consiste em um apenas de formas ideais) que está presente em toda a produ- processo de auto-organização. ção e no desenvolvimento dos produtos da natureza, os É também em 1800 que Schelling funda uma impor- quais, por sua vez, são capazes de refletir ou de espelhar a tante revista científica intitulada Periódicopara FísicaEspe- gênese desse processo, ou seja, seu princípio próprio de culativa, na qual dá continuidade a seu projeto de integração produtividade. da filosofia e de algumas teorias científicas sob o ponto de Schellingafirma, então, uma espéciede indiferença entre vista especulativo, com ênfase especial nos processos dinâ- o momento da criação do mundo e seu resultado como micos ligados a fenômenos físico-químicos. Essaintegração produtos da natureza - o que muitas vezes foi interpretado é filosoficamente desenvolvida em 1804 na obra intitulada como um tipo de panteísmo ou mesmo de misticismo, no Sistema da filosofia como um todo e da filosofia da natureza qual a natureza seria novamente divinizada. No entanto, em particular, em que Schelling elabora sua teoria das várias essa indiferença entre produtividade e produtos não exclui dimensões da matéria em correspondência com a das po- por completo a possibilidade de pensá-Ios como diferentes tências e utiliza como princípios para essa conexão os fenô- momentos da natureza. Um em que ela é sujeito, outro em menos do magnetismo, da eletricidade e do quimismo. que ela é objeto. Natureza producente e natureza produzida Cada potência da natureza se desdobraria em três diferentes são apenas dois aspectos de um único todo sistemático. dimensões.Agravidade,ou o pesoda matéria (dasSchwere), Com essa ampliação radical, Schelling também retoma é descrita a partir não de uma relação exterior das forças de a metáfora do livro sagrado da natureza, mas dessa vez não atração e repulsão, mas de sua dupla relação com o fenôme- mais a partir do dogma do criacionismo monoteísta cristão, no do magnetismo e com os elementos químicos envolvidos nem tampouco a partir da idéia de um código matemático, na constituição própria de nosso planeta, especialmente o tão típica da moderna ciência da natureza. "O que chama- carbono e os metais. mos natureza", afirma Schelling em seu texto de 1800 inti- O fenômeno do magnetismo não é explicado por tulado Sistema do idealismo transcendental, "é um poema, Schelling como causa da gravidade, mas como modo sensí- vel de sua manifestação. Essefenômeno é estendido desde o se combina com a força fundamental da gravidade dando nível microcósmico da relação de atração entre dois ele- origem a duas tendências opostas que atuam dinamizando mentos químicos, como, por exemplo, o hidrogênio e o a matéria com um movimento potente fundamental. Essas oxigênio formando a substância água, até o nível macrocós- tendências são descritas por Schelling como um movimento mico da relação de forças responsável pelo alinhamento dos centripetal e um centrifugal. Contidos no interior de cada planetas. O princípio do magnetismo rege a chamada pri- organismo, esses movimentos correspondem àqueles prin- meira dimensão da matéria não apenas porque estabelece cípios opostos fundamentais da matéria: a coesão e a expan- uma relação linear entre todos os corpos da natureza, mas são. Dessa nova relação dinâmica no interior do organismo, principalmente porque consiste em um força interna à pró- surge não apenas o movimento dos corpos ou dos corpús- pria matéria. O magnetismo é, segundo Schelling, o princí- culos, ou da matéria, mas os corpos propriamente ditos, pio de coesão da matéria cuja lei não é mais, por exemplo, a uma nova matéria, em uma nova forma orgânica. O orga- impenetrabilidade ou a indivisibilidade, e sim o impulso nismo é, assim, matéria que se organiza sensibilizando-se, primordial de um pólo para tornar-se uno com seu pólo excitando-se e reproduzindo-se. contrário. Já o princípio oposto da eletricidade, dialetica- mente complementar ao magnetismo, manifesta-se tam- bém como luz, que por sua vez entra necessariamente em o conceito de organismo como contato com a matéria em sua forma de massa submetida ao a grande síntese da natureza peso da gravidade. Por fim, os processos químicos consti- tuem-se, segundo Schelling, a partir da combinação desses O conceito de organismo, enquanto princípio de organiza- dois princípios anteriores, os quais estabelecem as forças de ção extensivo à natureza como um todo, não é criação ex- coesão e de expansão ou dissolução da matéria. clusiva da filosofia da natureza de Schelling. Como tivemos O organismo nada mais é do que a natureza que se oportunidade de mostrar brevemente, essa é uma idéia an- tornou totalmente autônoma, interiorizando todos os pro- tiga, que remete aos gregos e a sua compreensão da integra- cessos de síntese da matéria, especialmente os químicos, ção de logose physis, e que está presente desde Platão pela entendidos então como resultado da interação das relações idéia de alma do mundo, muitas vezes retomada na história dinâmicas contidas no magnetismo e na eletricidade. É uma da filosofia. Historicamente bem próximos de Schelling, potência da matéria que internaliza o processo de indivi- dois importantes pensadores alemães com certeza influen- duação presente desde o início da construção do universo. ciaram sua concepção orgânica de natureza: Johann Gott- fried Herder e Alexander von Humboldt. É a matéria animada pela energia da luz, a qual, por sua vez, No primeiro volume de sua obra intitulada Idéias para "grande organismo". Segundo ele, contudo, esse "grande a filosofia da história da humanidade, de 1784, Herder des- organismo da Terra", assim como todo ser vivo, necessitará creve a atuação das chamadas "forças orgânicas" no interior um dia encontrar seu próprio "túmulo"; mas dele se erguerá da "criatura", ou seja, do ente natural. Essas forças seriam novamente, em direção a uma nova e mais perfeita figura. A responsáveis por "novas formações" (Bildungen). O termo concepção holística e evolucionista de Herder sobre o pro- Bildung é exatamente o mesmo empregado por Schelling cesso contínuo da formação da natureza não exclui, portan- para descrever o processo de formação da natureza. to, o lado negativo da finitude. Segundo seus pontos de A semelhança entre ambos não se reduz à mera coinci- vista, a criação da natureza, que tem como princípio um ato dência de conceitos. Herder, assim como Schelling, utiliza de violência denominado por ele "violência do criador", freqüentemente uma linguagem poética para descrever o logo se revela como "arte completa ou perfeita". Essa arte processo de formação, que segundo ele se apresenta de estaria diretamete ligada ao que Herder chama de "espírito modo contínuo no interior do próprio organismo. Ele diz, formador" (bildende Geist), que "se incorpora" em absolu- por exemplo, que esse processo dá origem ao "florescimen- tamente todas as coisas. A natureza é finalmente concebida to da vida" (Blüte des Lebens). Com essa expressão .poética, como o "poder dos elementos" que se encontram "ligados Herder se refere ao mesmo tempo à aparição, à preservação em um ciclo ou circuito (Kreislauj) de organizações deter- e à reprodução da vida. Outra interessante concepção de minadas", e do qual ela nunca se retira. Herder, que nos remete imediatamente aos primórdios da Alexander von Humboldt, importante pesquisador de mitologia grega, encontra-se em sua idéia de caos. Ainda na diversos fenômenos naturais, também possui uma concep- obra de 1784 sobre a história da humanidade, Herder des- ção de organização da natureza claramente inspirada na creve a "bela criação" da natureza como um "trabalho" feito filosofia grega antiga. De acordo com sua obra de 1806, sobre si mesma, que tanto tende para o caos quanto dele se intitulada Latium e Hellas ou: Consideraçõessobrea Antigüi- destaca. Na seqüência dessa apresentação contraditória do dade Grega,Humboldt acredita encontrar na Grécia antiga processo de formação da natureza, Herder compreende o não apenas reciprocidade entre os conceitos de vida e orga- organismo envolvido em seu próprio processo de "refina- nização, mas também e especialmente a relação desses con- mento" e "amadurecimento", e finalmente estende esse ceitos com a atividade da fantasia (Phantasie). Segundo ele, conceito para o planeta inteiro. A partir dessa concepção os gregos antigos teriam concebido o orgânico a partir do organicista da natureza, Herder recupera uma antiga visão que nomeia "força formadora a partir do interior" (bildende mítica do planeta, ao mesmo tempo em que antecipa uma Kraft). Essa idéia aproxima-se etimológica e conceitual- importante tese schellinguiana, ao afirmar que a Terra é um mente da idéia schellinguiana de imaginação (Enbildungs- kraft), que também se traduz como «força de formação-em- vezes compreendida como uma grande contradição, um um" e como força ou faculdade da imaginação. A interpre- insolúvel paradoxo. Como é possível pensar que a matéria tação humboldtiana do conceito de organismo grego antigo viva antecede a matéria inorgânica no interior de um siste- tem nítido reflexo sobre a crítica ao conceito mecanicista de ma que concebe o organismo com último momento do natureza assumida por Schelling. Nessa mesma obra sobre desenvolvimento da matéria? Na verdade, é o próprio a Antigüidade clássica, Humboldt revela de forma indireta Schelling quem irá desenvolver, em sua obra de 1798, inti- sua própria concepção filosófica de natureza, ao enumerar tulada Da alma do mundo - uma hipótese dafísica superior três modos de ser absolutamente incompatíveis com a con- para explicação organismouniversal,uma sériebastante do cepção grega antiga de organismo: 1Q«Aquilo que não se complexa de questionamentos sobre essa relação entre a encontra na clara relação recíproca da parte com o todo"; 2Q matéria e a origem da vida, cujo resultado final consiste na «Aquilo que não subordina sua matéria e mesmo sua forma idéia aparentemente tão atual de auto-organização. à idéia de um todo"; e 3Q«Aquilo que não respira uma força Além de significar a recusa de qualquer causa alheia interior e livremente atuante". para o movimento da natureza, essa idéia, implica também A partir desseterreno fértil deixado por Herder e Hum- a tese revolucionária sobre a liberdade na natureza. A idéia boldt, mas também por vários outros pensadores e poetas do de uma ordem imanente à matéria organizada constitui século XVIII que ousaram recuperar uma noção menos para Schelling o símbolo do chamado «ato de conhecimen- abstrata de natureza, tais como Goethe e Novalis (dos quais to absoluto na natureza eterna", ou seja, da razão em seu é difícil falar sem uma descrição mais aprofundada de suas sentido absoluto enquanto lagosuniversal.No organismo, idéias), Schelling constrói seu próprio conceito de organis- o universal e o particular se encontram agora completamen- mo em direção a sua última radicalização: a dissolução ou, te indiferentes, do mesmo modo que nele matéria e luz se ao menos, a suavização da fronteira que separa os seres encontram plenamente identificadas. Isso porque, no orga- animados e os seres inanimados. nismo, todo processo de desenvolvimento da vida envolve O conceito schellinguiano de organismo não realiza um ciclo de relações recíprocas, elementares à matéria, que nenhuma nítida ruptura com o momento anterior do pro- vai da oposição das forças magnéticas, passando pela rela- cesso de formação da natureza, ou seja, com a dita matéria ção entre consumo e produção de energia elétrica, até cul- inanimada, pois, para ele, todos os processos envolvidos minar na complexa dinâmica das reações químicas, capazes nesse momento de formação já implicam um movimento de sintetizar nova matéria, possibilitando a manutenção da de organização interior. A concepção schellinguiana de or- vida. O conceito de organismo é assim definido como uma ganicidade no interior da matéria inorgânica foi muitas sucessão de causas e efeitos que, fechada no interior de um certo todo, flui de volta para si mesmo, formando um ciclo desde os meados do século passado, movimentos reivindi- não apenas restrito ao sistema interno da organicidade mas, catórios da preservação da natureza. A ecologia transfor- ao mesmo tempo, expandido e aberto, na medida em que mou-se em uma ciência tão respeitada quanto as outras, reflete o sistema da natureza como um todo ou que simbo- deixando, há muito, de ser um ideal romântico de indiví- liza a ordem absoluta do universo. duos contrários a um determinado sistema econômico vi- gente. Felizmente, a consciência sobre o ecossistema do planeta tem crescido de modo paulatino ao redor do mun- Conclusão: a filosofia da natureza hoje do. Seres humanos já iniciaram a construção de valores éticos menos antropocêntricos, e os sistemas de produção Optamos aqui pelo recorte de alguns momentos da história industrial passaram a incluir em suas agendas práticas eco- da filosofia importantes para a formação de uma concepção logicamente corretas. de natureza que acreditamos ter seu momento culminante Estamos ainda longe de encontrar soluções efetivas na filosofia do jovem Schelling. Outros recortes poderiam para o complexo problema da relação entre os seres huma- ter sido feitos, especialmente aquele que focaliza o pensa- nos e a natureza. Muitos ainda parecem acreditar que exis- mento da natureza de nosso conturbado momento históri- tem problemas econômicos, sociais e políticos cuja solução co. Como testemunhas desse novo século, marcado ainda é prioritária em relação à preservação do meio ambiente. E é pela eficiência da ciência e pela nova revolução no uso dos exatamente neste nosso cenário histórico que considero es- meios de informações, muitos de nós tendem a formar uma sencial a revisão filosófica do conceito de natureza por um visão catastrófica sobre a futura condição da natureza .ede fio condutor que busca harmonizar os vários momentos de nosso planeta. A crescente escassez de recursos naturais desenvolvimento dos seres naturais. A simples compreen- fundamentais, como a água; as mudanças, já empirica- são da natureza que inclui nossa própria espécie em seu mente verificáveis, das condições climáticas, decorrentes do imenso ciclo organizado pode em muito ajudar a recuperar desequilíbrio químico na economia natural que envolve o um novo sentido de liberdade. Uma liberdade menos egoís- binômio produção e consumo; sem esquecer os antigos ta e mais solidária, menos restrita ao ego humano e mais problemas que aparentemente envolvem apenas o homem, voltada ao universo. Breve chegará o dia em que compreen- como as disputas territoriais, políticas e religiosas; todos deremos a profundidade da máxima escrita por Schelling esses fatores levam os homens e as mulheres da ciência a em 1809: "Só quem experimentou o gosto da liberdade emitir um alerta sobre o perigo da auto destruição da huma- pode sentir a exigência de tornar tudo análogo a ela, de nidade. Junto com essa consciência, tem-se desenvolvido, expandi-Ia sobre todo o universo." dição; que, contra cada um deles, é oposto um outro Seleção de textos igual, com igual direito, e que apenas a unidade indivi- sível da idéia tem verdade em sua indivisibilidade. 57. Sobre a idéia racional de deus, de que ele é a afirmação infinita de si mesmo, o entendimento gostaria, inicial- mente, de separar o afirmativo e o afirmado e [então] de F.W.J. Schelling, Aforismos para introdução àfilosofia da natu- conceber, para si, deus, ora como um, ora como o outro. reza Aforismos 55 a 80 (as notas de rodapé são do original). Porém, de cada um desses dois membros, no interior c) Sobre a indivisibilidade do conhecimento racional ou dos quais a idéia parece resolúvel, o contraditório se sobre a impossibilidade de abstrair ou de deduzir algo da deixa demonstrar, exatamente pela idéia. idéia de absoluto 58. A idéia de que deus é a afirmação infinita de si mesmo 55. Mal a idéia de deus nasceu da plenitude da razão, apro- deus parece resolúvel em duas conseqüências. 111: afirma xima-se o entendimento para tomar parte nesse bem. deus é afirmado de si mes- a si mesmo infinitamente; 211: Ele gostaria de considerar separadamente isso que na- mo. Se vocês observarem a primeira por si, será impos- quela idéia é posto eterna e absolutamente como um, e sível que deus se afirme a si mesmo, pois o afirmativo (o também gostaria de dar realidade, fora da unidade, conceito) é sempre maior do que o afirmado (a coisa). àquilo que tem realidade apenas na unidade. Toda abs- Deus, porém, enquanto afirmando a si mesmo, é pro- tração, como esta, manifesta sua nulidade imediata- priamente igual (apenas um e o mesmo) a deus enquan- mente pela contradição que tem como acompanhante to afirmado de si mesmo. Deus não se compreende a si necessária. mesmo, porque ele não pode ser maior do que ele mes- mo é. Portanto, a proposição: deus seafirma a si mesmo, 56. Vocês acham que com essa contradição - na qual a idéia se dissolve, na medida em que sua unidade imedia- tomada por si, é, em virtude da própria idéia, uma ta é suspensa - estão lutando contra a razão e contra a proposição impossível. O mesmo vale para seu oposto. idéia, mas, na verdade, vocês estão revelando apenas sua Deus tampouco pode ser o afirmado de si mesmo; ele é essência mais interior. O que foi, e ainda é, revelado é incompreensível a si mesmo e não é compreendido, exatamente que o entendimento não pode afirmar, para porque não pode ser menor do que ele mesmo, porque (ou por) si, nenhum dos opostos possíveis, sem contra- ele não é um diferente, mas apenas um e o mesmo. 59. De modo equivalente, qualquer que seja sua expressão, atribuir a deus, em particular, um ser ou um conhecer. se vocês destacam o membro singular da identidade nela Pois a auto-afirmação de deus é infinita. Então, o cog- expressa, cada afirmação possível da razão pode ser dis- noscente e o conhecido são um e o mesmo nele,* não solvida em contradição, de modo que o [membro que havendo desse modo nenhum conhecer em deus. De foi] abstraído não pode ser posto nem pode deixar de forma semelhante, deus também não é a negação de sê-Io. Em virtude, por exemplo, da idéia de absoluto: se todo o conhecimento, um absoluto completamente ele fosse aquilo de cuja essência é também o ser, então cego, um mero ser. Pois o ser é, enquanto tal, apenas em nenhum ser poderia ser atribuído a deus; pois o ser en- oposição ao conhecer. O ser de deus é, porém, a infinita quanto tal é apenas em oposição à essência; em deus, afirmação de si mesmo, e não a negação do conhecer. porém, eleé absolutamente um com a mesma. Assimtam- 62. O mesmo se deixaria mostrar no sentido mais universal bém o ser de deus não pode ser negado, por esse motivo e da oposição do ser e do agir. Em deus, não há nem agir, exatamente porque o ser é nele o mesmo com a essência. nem negação do agir. Não há agir, porque a infinita 60. Na proposição deus é unidade e totalidade, a unidade auto-afirmação de deus é correlativa do ser de deus, e é não pode ser posta para (ou por) si. Deus não é pura e ela própria esse ser (61). O agir também não é negado simplesmente o uno; pois o uno o é apenas em oposição em deus, porque ele é, no ser, a afirmação infinita de si ao múltiplo. Em relação ao propriamente uno não há, mesmo. Assim, a circunferência do círculo pode ser entretanto, nenhum múltiplo. Então, essa idéia se supe- considerada um ser, mas, enquanto ser, ela inclui em si ra, e deus também não é uno. Por conseguinte, ele tam- um agir, a saber: o absoluto auto conhecimento da uni- bém não é não uno ou múltiplo. dade como totalidade. 61. Portanto, todo conhecer não é nada além de um afirmar. 63. Essa pequena consideração (55-63) basta para provar Antes de tudo, a ciência buscou a arte, em que o ser que a idéia do absoluto contraria aquela abstração, que inclui o conhecer, e o conhecer, o ser. Como seria pos- ela é pura e simplesmente indivisível, e que, portanto, é sível uma unificação mais perfeita entre ser e conhecer, impossível desenvolver, a partir dela, algo qualquer por exceto na idéia da substância universal? Na idéia de meio de análise ou abstração. deus, cujo ser é a infinita afirmação de si mesmo, e que, portanto, inclui em si, e certamente de modo infinito, o conhecimento, e cujo conhecimento (inclui), em con- . Pois na auto-afirmação de deus o cognoscente e o conhecido o mesmo [correção feita por ScheJling em seu exemplar manuscrito são um e trapartida, o ser. Mas, justamente por isso, é impossível e inserida em nota pelo editor alemão]. 64. A proposição de que o absoluto não tem nenhum predi- não o são, porque sua identidade positiva é posta, e eles cado' é totalmente correta, na medida em que o predica- também não o são, porque sua negação não é posta. do só é possível em oposição ao sujeito (uma oposição 67. A identidade absoluta do subjetivo e do objetivo não que é impensável em deus), e também na medida em que, pode ser um mero equilíbrio' ou uma síntese, mas apenas a cada predicado possível, pode ser oposto outro. Mas o ser-uno total. nada que possa estar em relação - portanto, nada que possa estar em oposição - é afirmável por meio da 68. Tentamos elucidar, mediante alguns exemplos, essa di- razão (36) e de deus. ferença, evidentemente muito clara em si, mas não para a maioria. O ponto de apoio de uma alavanca representa 65. O absoluto pode, por isso, ser eternamente expresso o equilíbrio de duas forças opostas. Ele é o unificante de apenas como absoluta identidade puramente indivisível ambas, mas não é, de modo algum, sua identidade ab- do subjetivo e do objetivo, cuja expressão é igual àquela soluta. É o que é, ou seja, um ponto de repouso relativo da infinita auto-afirmação de deus (36) e o descreve. apenas às duas forças opostas, não em si mesmo. Nele, essas forças opostas se reduzem mutuamente a zero, mas 66. A razão não põe, nessa idéia, a negação dos opostos nem ele mesmo, enquanto tal, não é o zero positivo de ambas. os opostos efetivos. Não põe a unificação, porque, se assim o fizesse, a própria unidade seria meramente ne- 69. Exemplos do absoluto ser-uno de opostos são dados gadora e, por conseqüência, condicionada. Os opostos necessariamente por toda a natureza, e, em abundância, são, porém, extintos naquela idéia não de forma negati- por todas as ciências. Mesmo aquele que tentasse con- va, mas positiva. Não é sua diversidade que é negada, ceber a matéria apenas da maneira mais simples, a partir mas sua absoluta identidade que é posta. Isso não signi- da contração e da expansão, nunca atingiria uma maté- fica, contudo, que o contrário seja válido, ou seja, que os ria real enquanto considerasse opostas cada uma das opostos sejam postos como efetivos naquela idéia. Eles duas forças, tal como aquelas de uma alavanca, e se de imediato pensasse a matéria não inteiramente mas, em cadaponto, como expansiva e como atrativa. . O autor dos famosos Aforismos sobre o absoluto, que devem ser uma paródia da chamada mais nova filosofia, porém depois fielmente reescritos por opositores da mesma, também registrou essa proposição. Entretanto . Um equilíbrio de opostos é o mais elevado, para o qual se pode estabe- seria para ele, especialmente também nessa relação, recomendável uma lecer relação: por isso esse equivoco da idéia por parte daqueles que nada leitura mais exata do artigo "Sobre a relação do ceticismo com a filosofia concebem além de relações. A maioria contestou, pois, esse produto de seu e suas diferentes modificações", que está no Jornal Críticode Filosofia, desentendimento. Mas o que se deve julgar sobre aqueles que não querem voU, p.2. discutir contra isso, mas- - com isso contra mim? 70. Se pensarmos em um instrumento do sentido, por circunferência for indiferente, então, ela é igual ao pon- exemplo, em um órgão da visão, esse é, em cada ponto to). O ser-uno de ambos não é o ser de duas partes, que de sua essência, um ser e um ver, e é obviamente apenas apenas juntas constituem um todo. Ambos não são fa- um. O ver e o ser se relacionam entre si não como dois tores do círculo. Este não é o produto nem a síntese de fatores que se reduzem a zero. Além disso, obviamente, ambos; ele é sua identidade absoluta. o órgão não é apenas ser, abstraído do ver - se o fosse, 72. A natureza inteira luta contra toda abstração, por exem- ele seria apenas matéria. Tampouco ele é somente ver, plo, contra aquela da matéria enquanto puro ser, do abstraído do ser - se o fosse, não seria órgão. Ao con- qual são negadas toda vida subjetiva e interior, toda per- trário, ele é totalmente ser e totalmente ver. Ele é, no ser, cepção. Mesmo quando, na esfera mais profunda da na- também um ver, e no ver, também um ser. tureza, as percepções são mais obscuras e menos nítidas 71. A idéia do círculo é puramente simples e indivisível. do que em nós - como nos animais -, elas não dei- Mesmo que o centro e a circunferência já se encontrem xam de ser reconhecíveis. Conseqüente e simultanea- mente, consideramo-as essências meramente materiais. espacialmente (no círculo concreto) fora um do outro, na idéia do círculo eles são obviamente um. Do círculo Mas como é que se acrescenta aqui a percepção à maté- não se pode fazer abstração, pois o centro, por si e sem ria, se esta não é perceptível, nem em si, nem enquanto a circunferência, também não é centro; a circunferência ser? O agir dos animais é completamente cego. Nós não por si, abstraída do centro e, por conseguinte, de todo o pensamos neles mesmos como agentes, pensamos em círculo, também não é circunferência. Verdadeiramen- outro, em um fundamento objetivo agindo neles. De te, o que é colocado na idéia do círculo não é nem o modo equivalente, reconhecemos com incontestável centro por si, nem a periferia por si, mas já, em cada um, certeza - imposta a nós pela engenhosidade (Sinnig- necessariamente, o círculo, isto é, a unidade absoluta. O keit) daquelas ações, em especial dos impulsos para a centro é o círculo intuído em sua afirmatividade, ou é o arte (Kunsttriebe) - que esse princípio meramente ob- círculo ideal, pois o que é, afinal, o ponto, senão uma jetivo, relativo aos animais, quando observado em si, linha circular de diâmetro infinitamente pequeno ou seria também um princípio subjetivo, semelhante ao um círculo, cuja periferia coincide com o centro? A princípio consciente no interior da inconsciência, sem circunferência é, ao contrário, apenas o círculo em seu que com isso nós estabelecêssemos qualquer dualismo. Mesmo o mais obstinado hábito de ver na natureza a ser-afirmado ou intuído na totalidade. A unidade é aqui, enquanto tal, igual à totalidade. O centro, enquan- mera objetividade já poderia, desde muito, ter sido supe- to tal, é igual à circunferência (pois se o tamanho da rado pelas aparições de circunstâncias extraordinárias dos seres humanos, das quais, mesmo segundo a repre- 75. Contudo (55-74), a abstração não pode fazer qualquer sentação comum, a alma não toma parte. Por exemplo, coisa sobre a idéia de deus, tal como tlexioná-Ia ou as ações habilidosas e seguras de Unt noctâmbulo, que extrair dela algo particular, a fim de pô-lo para si, do acontecem de modo tão completamente inconsciente e, mesmo modo que é impossível deduzir dessa idéia algo contudo, revelam, não raro, tanta finalidade quanto têm as ações dos animais - esses constantes sonâmbulos. por via da gênese ou da produção da mesma. 73. A opinião não é, portanto, de nenhum modo, a de que a 76. Tudo é, sem origem e eternamente, em deus. Pois, o que absoluta identidade do subjetivo e do objetivo seja ape- podeser em virtude dessa idéia é necessariamente e é nas a essência particular de deus (poi:s a essência de deus eternamente, e o que não pode ser desse modo não pode não é nenhum particular), mas a de que essa identidade ser de modo algum. Nada pode, por conseguinte, nascer é a essência de todas as coisas, o universal propriamente (entstehen) verdadeiramente em deus ou a partir de dito, e que nada é ou poderia ser afirmado, que não fosse deus. igualmente afirmativo e afirmado --- sem nenhum dua- lismo. Também não se trata de uma oposição real (reel- 77. Deus não tende para nada, nem nele, nem fora dele, pois le), quando uma e a mesnta essência carrega dois nomes ele é todo bem-aventurado (allselig);ele não causa nada, diferentes: A e B. Tampouco, a essên<::iaA e a essência B pois ele é tudo. A infinita afirmação de si mesmo não é são, nesse caso, duas essências difereI1tes. Ao contrário, nenhuma ação, diante da qual deus se comporta como elas são, muito mais, apenas Uma essência, de modo sujeito, mas é propriamente o ser de deus. Deus não se que cada afirmável por tneio da razão é apenas Uma torna pelo fato de que ele se afirma ou se conhece a si essência, e, enquanto Un.a, é plena1"T:1entefirmativa e a mesmo, mas ele é um infinito autoconhecer no infinito plenamente afirmada, totalmente ide<\l e totalmente real ser, não fora dele ou em ação particularizada. (em alemão, real). 78. Essa id~ia da infinita auto-afirmação do infinito ser-dt'. 74. Exatamente porque essa identidade absoluta do subjeti- si-e-a-partir-de-si-m.esmo é tão simples quanto é diflcil fundamento está vo e do objetivo é a mesma em tudo. oQ) para o entendimento, que tem sua essência apenas t'm apenas em deus, o qual é a infinita C/firmação de si mes- oposições. Para o entendimento, essa idéia não é nem mo, e por intermédio do qual, enquanto substância uni- uma autopartição de deus - de modo que elepudcsst\ versal, toda substância é igualmente ~m si unidade do por exemplo, manter uma parte de si mesmo objl'livn afirmativo e do afirmado. mente (enquanto mumdo) e a outra parte para si, Olldt' modo que ele se pusesse a si mesmo como negado, no ciência só tem valor enquanto é especulativa, ou seja, sujeito e no objeto (o que entraria em conflito com a como contemplação de deus como ele é: idéia mais inicial de deus, que é ser a infinita posição de si mesmo) - nem uma autodiferenciação, pois [nesse As explicações dadas até agora contêm os meros inícios caso] ela seria apenas, em geral, um agir em deus, en- da filosofia. Sobre eles é completamente sem sentido discu- quanto teria que ser, ao contrário, a auto-identificação tir com aqueles que, seguindo suas múltiplas exterioriza- de deus. ções, não podem fazer nenhuma outra representação do absoluto além daquela de uma coisa, mesmo que de uma 79. De igual valor, ou seja, totalmente contraditória, é a coisa que possui, de forma inerente, a identidade de subje- representação de um emergir do absoluto para fora de tivo e objetivo, tal como uma propriedade. Querer dar ou- si mesmo. Se deus pudesse sair para fora de si mesmo, tros esclarecimentos seria também totalmente inútil. De conseqüentemente ele não seria deus, nem absoluto. A todas as elucidações da idéia mais simples, vale, aliás, aquilo absolutidade ou a auto-afirmação infinita é muito mais que Leibniz afirma em algum lugar: "Alguém disse que, se o o eterno retorno, não enquanto ação, mas enquanto o espírito tivesse uma visão clara e direta do infinito, o pe. ser e a subsistência eternos de deus em si mesmo. Malebranche não teria tido necessidade de tantos raciocí- nios para nos fazer pensar nisso. Mas, pelo mesmo argu- 80. Essa consideração (75-79) - assim como as que a ante- mento, se rejeitaria o conhecimento muito simples e muito cederam (55-74) - mostra que o entendimento não natural que temos da divindade. Esses tipos de objeções pode tomar nenhuma parte na idéia do absoluto, e, se nada valem, pois é preciso trabalho e aplicação para dar aos para a ciência só estão'abertos esses dois caminhos para homens a atenção necessária às noções mais simples, e não o conhecimento - o da análise ou abstração e o da se consegue senão lembrá-Ios de sua própria dissipação. É também por isso que os teólogos que falaram sobre a eter- dedução sintética (como é, aliás, o caso da repre- nidade necessitavam de muitos discursos, de comparações sentação dominante) -, então evitemos toda ciêncIa do e de exemplos para torná-Ia conhecida, embora não haja absoluto. Nada se deixa particularizar de deus, pois, nada mais simples do que a noção da eternidade etc., etc." exatamente por isso, ele é absoluto, porque nada se deixa abstrair dele. Nada se deixa derivar de deus, como se tornando ou surgindo, pois, exatamente por isso, ele é deus: porque ele é tudo. Especulaçãoé tudo, ou seja, a . Compara-se a isso o [meu] tratado sobre o modo de apresentar todas as coisas no absoluto, no Neuen Zeitschrift fUr speku/ative Physik (Novo visão, a consideração disso que é em deus. A própria Peri6dico para Física Especu/ativa), caderno 11,§ IV. [voI.IV, p.391]. Cronologia século XII Thierry de Chartres defende uma ordem racio- nal da física como uma lei que nem o criador poderia trans- gredir. século XIII Tomás de Aquino estabelece explicações cau- sais para os fenômenos da natureza, seguindo um princípio teleológico de continuidade. século VIa.C. Thales de Mileto afirma que a natureza tem século XIV Paracelsus elabora uma concepção vitalista da um princípio único: a água; Pitágoras concebe uma ordem natureza. matemática do universo; Heráclito propõe a teoria do devir século XV Giordano Bruno concebe a natureza em sua na natureza e Parmênides afirma o movimento na natureza como ilusão dos sentidos. organicidade, negando o geocentrismo e afirmando a infi- nitude do universo, teses pelas quais foi condenado à fo- c.478 a.C. Leucipo lança a teoria atomista da natureza, gueira. desenvolvida depois por Demócrito e Epicuro. 1543 Nicolau Copérnico publica Sobre as revoluçõesdas século IVa.C. Empédocles lança a teoria dos quatro ele- órbitas celestes,na qual justifica minuciosamente o sistema mentos da natureza e Platão concebe uma harmonia geo- heliocêntrico. métrica do cosmo através do conceito de "alma do mundo". 1585.1638 Galileu Galilei desenvolve uma série de experi- mentos científicos e de teorias mecanicistas sobre os fenô- século 11Ia.C. Aristóteles concebe, a partir da idéia de mo- vimento, uma filosofia teleológica da natureza fundada na menos da natureza, e retoma a metáfora do livro da nature- teoria do ato e potência e da matéria e forma. za, cuja linguagem é agora essencialmente matemática. 1620 Roger Bacon publica a obra Novum Organon, na 62 Sêneca cunha pela primeira vez na história o termo qual concebe uma teoria empirista sobre a natureza. "filosofia da natureza", ou philosophia naturalis. 1609-18 Johannes Kepler enuncia as leis do movimento c.400 Santo Agostinho estabelece a distinção entre natura planetário. naturans e natura naturata em função da doutrina cristã do 1644 René Descartes reafirma a idéia de uma constituição criacionismo, lançando a idéia de natureza como imagem geométrica da natureza, reduzindo toda matéria natural à de Deus e como análogo do livro sagrado (analogia herme- nêutica). forma pura da extensão. 1661 O químico irlandês Robert Boyle publica O químico século XI Hugo de Saint- Victor descreve a natureza como cético, em que derruba a teoria dos quatro elementos da um livro "escrito pelo dedo de Deus". natureza e reinterpreta a teoria do atomismo. 70 1805 Com o médico alemão A.F. Marcus, Schelling funda 1687 Isaac Newton publica Principia, no qual formula a lei da gravidade universal. os Anuários de medicina como ciência, no qual são publica- dos, pela primeira vez, os Aforismos para introdução àfiloso- 1695 Gottfried Willhelm Leibniz publica Novo sistema da fia da natureza. natureza, obra na qual expõe uma teoria dinâmica do movi- mento e a tese de uma harmonia preestabelecida do mundo. 1780 O médico escocês John Brown define a vida como excitabilidade e desenvolve uma teoria capaz de explicar a origem da doença. 1793 Carl Friedrich von Kielmeyer, fundador da anatomia comparada, publica a obra Sobre a relação das forças orgâni- cas,na qual descreve as três forças orgânicas fundamentais: sensibili~ade, irritabilidade e reprodução. 1797 Friedrich Wilhelm Joseph Schelling publica a obra Idéias para uma filosofia da natureza, que inaugura um com- plexo sistema filosófico sobre natureza, fundado na concep- ção de uma "física especulativa", em reação à moderna física mecanicista. 1798 Schelling publica Da alma domundo- umahipótese da ftsica superior para explicação do organismouniversal, na qual desenvolve a teoria sobre a relação entre a matéria e a origem da vida, iançando a tese de auto-organização da natureza. 1799 Publicação dePrimeiroprojetodeum sistema dafilo- sofiada natureza,obra na qual Schellingpretende superar a histórica diferença entre natura naturans e natura naturata através da idéia de um princípio de produtividade. 1804 Schelling lança a obra Sistema dafilosofia comoum todoedafilosofia da naturezaemparticular, na qual desen- volve a teoria das dimensões da matéria. Referências e fontes lingsphilosophischen Anfiingen (Frankfurt am Main: Suhr- kamp, 1975). Uma tradução em português pode ser encon- trada no volume sobre Schelling da Coleção Os Pensadores. . Referências e textos citados das obras de Schelling foram traduzidos do original alemão de suas obras editadas em seis · As passagens citadas de Aristóteles, a partir da página 13, encontram-se em sua obra intitulada Metafísica. volumes pela editora Suhrkamp (Frankfurt am Main, 1985) sob o título de Ausgewiihlte Schriften (AS). As principais referências estão em Einleitung zu Ideen zu einer Philosphie · Para uma compreensão das principais teses de Galileu Galilei, como a c.itadana página 15, ver o volume sobre o der Natur...; System des tranzendentalen Idealismus; e "Die W eltscele" . autor na Coleção Os Pensadores (São Paulo: Nova Cultural, 1991), em especial a obra intitulada O ensaiador. .Na página 33, o trecho original do fragmento citado é: "Ich mochte unser langsamen, an Experimenten mühsam schrei- · O trecho de Pia tão citado na página 16 pode ser encontra- do em Timeu, 33b, publicado no volume sobre o filósofo da tenden Physik einmal wieder Flügelgeben." ("Eu gostaria de devolver as asas à nossa física, que caminha vagarosa e com Coleção Os Pensadores (São Paulo: Nova Cultural, 1987). esforço por I!leio de experimentos."), na página 110 da · A citação feita à página 21 encontra-se na tradução portu- edição alemã indicada. Uma tradução desse texto, intitula- guesa da obra de Robert Lenoble, Hist6ria da idéia de natu- do O mais antigo programa de sistema do idealismo alemão, reza (Lisboa: Edições 70, 1990, p.84). Essa obra serviu de pode ser encontrada no volume sobre Schelling da Coleção base para algumas das descrições históricas aqui desenvol- Os Pensadores. O original foi publicado na coletânea de vidas. obras tanto de Schelling, quanto de Hegel e de Hõlderlin. · As idéias de Descartes citadas na página 30 podem ser encontradas em sua obra Princípiosdafilosofia (Lisboa: Edi- . Na página 44 a obra de J.W. Ritter referida é Beweis, dafi ein bestiindigerGalvinismus den Lebensprocefiin dem Thier- ções 70, 1997). reich begleite(Demonstração de que um galvanismo contí- nuo acompanha o processo vital no reino animal). Weimar, · Baseei minhas análises sobre o fragmento referido a partir 1798. da página 32 na sua edição alemã intitulada "Das sogen- nannte 'Alteste Systemprogramm des deutschen Idealis- mus'." In: M. Frank e G. Kurz (orgs.). Materialien zu Schel- . Nas páginas 52 e 53, as referências à obra de Herder foram retiradas das páginas 261 e 605 da edição digital Quellen 74 Philosophie:Deutscher ldealismus (Berlim: Digitale Biblio- Leituras recomendadas tek,2004). ·Nas páginas 53 e 54, a referência à obra de Humboldt baseia-se também em Quellen Philosophie: Deutscher ldealismus, S.12. Obras introdutórias sobre a filosofia da natureza em português: Lenoble, Robert. História da idéia da natureza. (Lisboa: Edi- ções 70,1990). Obra importante como introdução histórica ao con- ceito de natureza. Chediak, K. e A.A.P. Videira (orgs.). Temas de filosofia da natureza. (Rio de Janeiro: Uerj, 2004). Coletânea que reúne artigos apresentados no I Simpó- sio de Filosofia da Natureza, promovido pelo Grupo de Pesquisa de Filosofia da Natureza da Uerj, é dividida em subtemas que envolvem a relação da filosofia da natureza com as ciências da natureza, como a física, a biologia, a cognição e a ecologia. Ciência & Ambiente, n.28: Filosofias da natureza. (Santa Maria: UFSM, 2004). Esse volume da revista semestral da Universidade Fe- deral de Santa Maria é dedicado ao tema da filosofia da natureza e reúne diversos artigos interessantes, que abrangem desde a filosofia grega antiga até a concepção cosmológica da física contemporânea. 77 Obras de Schelling e sobre Schelling: Artigos da autora sobre filosofia da natureza: Schelling, F.W.J. Obras escolhidas,Coleção Os Pensadores. Gonçalves, Márcia Cristina Ferreira. "Schelling: filósofo da (São Paulo: Abril Cultural, 1979). natureza ou cientista da imanência". In: Puente, Fernan- do Reye Leonardo AlvesVieira (orgs.). As filosofias de Coletânea de obras traduzidas por Rubens Rodrigues Schelling.(Belo Horizonte: UFMG, 2005, v.1,p.71-90). Torres Filho, inclui o fragmento de 1796-7 intitulado "Programa sistemático", a primeira parte da obra "Ex- . "Pode a natureza humana ser bela? A filosofia da posição da idéia universal da filosofia em geral e da natureza na Alemanha do século XIX". In: Ciência & filosofia da natureza como parte integrante da primei- Ambiente, v.1, n.28, p.69-78. (Santa Maria: UFSM, ra", de 1803, e "Bruno ou do princípio divino e natu- 2004). reza das coisas". . "Ética e natureza". In: Ethica,v.8, n.2, p.35-51. (Rio . Aforismos. Fragmentos para introdução à filosofia de Janeiro: UGF, 2001). da natureza e Aforismos sobre a filosofia da natureza. . "A idéia de natureza e a natureza da idéia no pen- Trad. Márcia C.F. Gonçalves. samento de Hegel". In: Revista de Ciências Humanas, Inclui uma introdução sobre a filosofia da natureza de v.21, n.1, p.13-35. (Rio de Janeiro: UGF, 1998). Schelling feita pela tradutora. Ainda inédita. . "A questão da relação entre o ser humano e o ser . Escritos sobre filosofia de Ia naturaleza. (Madri: natural nos contextos da ética, estética e filosofia da Alianza Universidad, 1996). natureza. Ou: O direito da natureza a ser livre e bela". Essa edição reúne algumas obras de Schelling sobre In: Ethica, v.5, n.1, p.63-87. (Rio de Janeiro: UGF, filosofia da natureza, e possui uma boa introdução do 1998). tradutor Arturo Leyte. . "Filosofia da natureza ou Movimento ecológico. Puente, Fernando Reye Leonardo Alves Vieira (orgs.). As Uma introdução ao problema da relação entre idéia e filosofias de Schelling. (Belo Horizonte: UFMG, 2005). experiência na natureza". In: Chediak, K. e A.A.P. Vi- Uma reunião dos artigos apresentados no congresso dera (orgs.). Temas de filosofia da natureza. (Rio de internacional "As filosofias de Schelling", realizado em Janeiro: Uerj, 2004, p.300-11). 2001 na UFMG. Útil como obra introdutória ao pen- samento de Schelling em suas várias fases. J Sobre a autora CNPq sobre filosofia da natureza, atuante no Departamen- to de Filosofia da Uerj, e é membro da Sociedade Hegel Brasileira (SHB). Escreveu vários artigos publicados em re- vistas especializadas sobre filosofia da natureza, filosofia da arte e obras de Hegel e Schelling em geral, e também se dedica à arte da poesia. Márcia Cristina Ferreira Gonçalves nasceu no Rio de Janei- ro em 1962.Estudou filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) no período entre 1982 e 1985. Cursou especialização em filosofia no Instituto de Filosofia e Ciên- cias Humanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde, em 1991, recebeu o título de mestre com a dissertação "A religião e a vida nos escritos de juventude de Hegel", sob orientação do prof. dr. Luiz Eduardo Bicca. Em 1996, obteve o título de doutora em filosofia pela Freie Universitãt Berlin (FU Berlin), após a defesa da tese intitu- lada "Von Helden, Gõttern und vom Schicksal. Mythos und dichtkunsttheoretische Dimensionen der Ãsthetik Hegels" (Heróis, deuses e destino. Sobre as dimensões teóricas do mito e da poesia na estética de Hegel), orientada pelo prof. dr. Walter Jaeschke. Em 2001, publicou a versão em portu- guês desse trabalho, sob o título O belo e o destino (São Paulo: Loyola). Desde 1999, a autora é professora adjunta de filosofia da Uerj, onde é pró-cientista em regime de dedicação exclu- siva, com uma pesquisa sobre a filosofia da natureza de Hegel e Schelling. Integra (e atualmente coordena) o GT Estética, grupo de trabalho da Associação Nacional de Filo- sofia (Anpof). Participa do grupo de pesquisa registrado no 80